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Francisco Chagas, ou simplesmente Chico, como era chamado pelos seus alunos, repetia as mesmas coisas todos os dias. Acordava com imensa dificuldade, abria os olhos com preguiça e se espreguiçava com gosto. Dormia numa cama de casal, mas acordava sozinho. Sua mulher tinha morrido há três anos, vítima de um câncer no pâncreas. Disseram a ele que o câncer de pâncreas é o pior de todos. No início foi difícil, se encolhia num canto e chorava por horas a fio. Colocava a cabeça entre as mãos e pensava na esposa, no quão importante ela era e em todas as lembranças que construíram juntos.

Na ocasião da morte, pediu licença da universidade, onde dava aulas na graduação de Sociologia, para tentar colocar a cabeça no lugar. Chico ainda não tinha se acostumado com a idéia de estar sozinho, de acordar sozinho, de dormir sozinho, de não ter os sorrisos compartilhados, as mãos dadas, o sexo e até as brigas. Tinha 43 anos e vivia uma vida módica, repetitiva, comum. Francisco Chagas não era ninguém. Morava sozinho no mesmo apartamento de dois quartos no Leblon que dividira com a mulher. Não tinha amigos, seu filho morava na Alemanha, onde fazia doutorado, e o restante de seus parentes não lhe dava bola.

A relação com o rebento não era e nunca foi muito boa. Os dois não se batiam e, se conseguia entender o mecanismo de funcionamento das sociedades ao longo do tempo, Chico não se comunicava com seu filho. Os dois conviveram por 23 anos no mesmo espaço e não compartilharam nenhuma história importante, nenhum momento especial. Logo depois da morte da mãe, o rapaz foi para o exterior. A despedida do pai foi complicada, Francisco foi até o aeroporto internacional com os olhos marejados. Mesmo que já se sentisse assim com o filho do lado, sabia que agora ia ficar sozinho de verdade. Flávio não soube corresponder direito ao abraço que o pai lhe deu.

Os dois nunca tinham trocado carinhos, sorrisos, nada. Era uma mera convenção formal. No portão de embarque, Flávio não olhou para trás. Passou pela alfândega levando uma mala de mão, teve o passaporte vistoriado e entrou. Francisco ficou arrasado, foi correndo para o banheiro do aeroporto e escolheu a primeira cabine vazia para chorar. Sabia que agora não tinha mais jeito, que a relação que poderia tentar construir com o filho não voltaria mais e que havia milhares de quilômetros de distância separando os dois. Seus esforços e as tentativas de Flávio de reviver algo que nunca existiu sempre foram insuficientes.

Os dois nunca tiveram uma boa noção do que era realmente ser pai e filho, Chico tornou-se pai aos 19 anos, não estava preparado, e Flávio dividia a atenção do pai com dezenas de alunos da graduação. Concorrência que considerava desleal, pois nunca foi afeito à Sociologia. O elo de ligação entre os dois era a mãe, Ligia. Mediadora de discussões e de silêncios, ela tentava criar uma convivência, ainda que forçada, entre as partes. Também fracassou. Fingia que conseguia, a verdade era essa. O fato é que, depois de sua morte, Francisco passou a chorar com freqüência.

Era um homem forte, sadio, admirado pelas alunas. Chamava a atenção, tinha os olhos bem pretos e arredondados, barba mal feita e um ar inegável de intelectual, mas escondia lá dentro uma personalidade muito sensível. No dia da despedida do filho, passou cerca de 20 minutos dentro da cabine. Chorava copiosamente, encarava a ida de Flávio como uma segunda morte na família e essa mais cruel ainda, pois era remediável. Esperou as lágrimas cessarem e limpou os olhos o máximo que pudesse, não podia andar no saguão do aeroporto naquele estado. Depois de lavá-los com bastante água e respirar fundo, foi até o carro. Olhou na agenda do telefone celular, mas não viu nenhum amigo que pudesse lhe dar algum conforto. Nenhum colega de profissão que o acompanhasse e amparasse.

Na volta para casa, um turbilhão de pensamentos tomou conta de si. Sua cabeça pesava mais do que nas piores crises de enxaqueca e suas mãos não conseguiam pressionar o volante com força. Chegou a pensar em soltar as mãos e ver o que acontecia, se o carro estava desalinhado ou não, se poderia pender para a esquerda, bater contra o meio-fio e capotar cinematograficamente na pista. Sempre teve curiosidade em saber como é estar dentro de um carro que capota. Será que dói? Nunca soube. Por mais frágil que suas mãos estivessem, dirigiu até em casa.

A entrada no apartamento foi das mais tristes. O quarto que dividia com a mulher ainda conservava muitas lembranças dela: fotografias, quadros, livros, sorrisos, cheiros, cores, sensações. Agora também havia o do filho, intacto, simples. Uma cama de solteiro, alguns livros, um tênis apoiado na parede. Chico costumava andar na praia do Leblon. Tentava, desesperadamente, pensar em outras coisas, em algo que lhe desse alguma motivação. Não funcionava muito, ele se boicotava e andava muito pouco e, quando andava, acaba desistindo no meio do caminho e sentava na areia, olhando o mar.

No dia em que acordou, fazia muito frio. Depois de lutar muito com a própria resistência em levantar e de pensar na esposa que não estava mais consigo, o professor abriu as pesadas cortinas pretas e, ainda de pijama, pegou o jornal na porta. As noticias eram iguais há 20 anos, exatamente as mesmas coisas, só mudavam os protagonistas. Era um remake da mesma peça de teatro. Apesar de ter a assinatura, Francisco não lia o jornal. Comprava porque se algum aluno perguntasse algo, ele poderia checar, mas, por conta própria, lia a capa e o caderno de esportes, no máximo.

Achava aquilo tudo uma hipocrisia sem tamanho e se irritava quando alguém começava a comentar algum caso que estivesse em destaque na mídia. Tomava café sem a menor emoção, mastigava o pão duro e velho com desagrado e remexia o mamão com a colher de chá. Tirava as sementes pretas e as esmagava contra o prato azul. Comia pouco no café da manhã, não tinha mais a mulher para fazer omeletes, panquecas e as tortas que adorava. Se virava como podia. Tinha uma vida franciscana depois da morte da esposa. Guardava algum dinheiro no banco, mas evitava usá-lo. Talvez deixasse para o filho, mas ainda não ponderou sobre o assunto.

Enquanto comia, Chico folheava o jornal, lia as manchetes de assassinato, crise, inflação, desemprego e olhava as figuras do caderno de esportes, onde lia as matérias do Vasco da Gama. Colocava uma quantidade descomunal de açúcar no café. Para ficar acordado nas aulas, dizia. Depois de comer, Francisco sempre levava os pratos para a pia da cozinha, mas não lavava nenhum. Deixava-os sujos por dias até que a situação ficava insuportável e ele então tomava alguma atitude.

Quando ia para a universidade, tentava ouvir algum disco antigo. Apostava em clássicos da bossa nova, mas tudo o que colocava para tocar lhe lembrava de Ligia. Menescal, Jobim, Lyra, ela era viciada em todos eles. Colecionava vinis originais dos artistas e tinha uma compilação de cds que adorava. A bem verdade, Chico ouvia aquilo para ficar mais perto da mulher. As vezes se distraía pensando nela, fazia uma manobra mais arriscada no trânsito ou esquecia de travar as portas. Se a esposa era apaixonada por musica, ele era, ou tinha sido, pela Sociologia. Estudara na Europa, onde fez doutorado e consumia livros por compulsão. Tinha mais de 400 em casa e jurava que tinha lido a maioria. Nas aulas, a paixão não vinha muito a tona.

Falando a verdade, ele já não via mais o porquê de fazer aquilo. Os alunos eram burros, insuportáveis, desinteressados. Ninguém ali queria aprender, só queriam notas no fim do período. E Francisco fazia isso. Dava suas aulas no modo automático, não olhava pra o rosto de nenhum dos alunos, os entulhava de conteúdo desorganizado, e depois aprovava todos. Algumas garotas tentava ludibriá-lo com decotes e outros artifícios para garantir um eventual aumento na nota, mas Francisco abominava aquele tipo de prostituição desesperada da burrice.

Passava nove horas na universidade, onde, às vezes, tomava café com algum outro professor ou aluno mais interessado. Eram ocasiões raríssimas. Preferia sempre expresso, com muito açúcar. Não ia para outros lugares depois do expediente. Chico era um professor atuante, lutava pelas melhorias das condições de ensino e de infra-estrutura acadêmicas, mas a paralisia da administração da faculdade o desanimava cada vez mais. Era simplesmente inútil continuar tentando. Costumava tomar um chope com alguns colegas até a data da morte de Ligia. Depois daquele dia, ia direto para casa.

Passava entre uma hora e meia e duas horas no trânsito até que chegava no seu apartamento de dois quartos no Leblon. Assistia um pouco de televisão, olhava as pessoas caminhando na rua, comia alguma coisa e então colocava o pijama que a esposa tinha lhe dado de presente anos atrás. Com ele, deitava na cama de casal e abria os braços esperando um abraço que não viria. Vivia incompleto. E seria assim por todos os dias

RIO DE JANEIRO – Era fácil observar que a grande maioria dos que foram ao Vivo Rio na noite desta terça-feira e se dispuseram a pagar ingressos com preços variando entre R$ 200 e R$ 400 não fazia idéia de quem era Herbie Hancock. Praticamente lotada, a casa de shows do Aterro do Flamengo, na zona sul, se encheu de curiosos para saber quem foi o vencedor do Grammy de melhor disco deste ano. Muitos dos presentes esperavam um pianista de jazz tradicional, mas o termo não tem sentido quando se fala em Hancock, que ganhou o prêmio no mês de fevereiro pelo álbum “River: The Joni Letters”, desbancando a concorrente Amy Winehouse.

O prêmio foi recebido com espanto por Hancock, pois desde 1964, quando o saxofonista Stan Getz levou o Grammy de melhor álbum por seu trabalho ao lado de João Gilberto no clássico “Getz/Gilberto”, nenhum outro músico de jazz havia conseguido vencer nessa categoria. Na ocasião, Herbie Hancock agracedeu a coragem da academia e disse que a vitória serviria como uma homenagem para os mestres Miles Davis e John Coltrane.

Vestindo um paletó preto que cobria uma camiseta estampada com o cavalinho da Ferrari, o pianista e compositor subiu ao palco sem dizer uma única palavra. Depois de um tímido sorriso, sentou ao piano e iniciou a apresentação homenageando o saxofonista e amigo Wayne Shorter com uma releitura da clássica “Footprints”, composta no tempo em que os dois faziam parte de uma das mais importantes reuniões musicais de todos os tempos, o Miles Davis Quintet, que contava ainda com o baixista Ron Carter e Tony Williams na bateria.

Aos olhos atônitos da platéia, o quarteto de Hancock – composto por baixo, bateria, piano e guitarra - recriava “Footprints” com uma levada baseada nos sintetizadores de Herbie, uma das marcas registradas do pianista, que demonstrava aos curiosos que de “tradicional” não tinha nada.

Sorrindo muito, o músico brincava com os outros integrantes do quarteto, que emendou “Actual Proof”, do álbum Thrust (1974), na seqüência. “It’s a crazy song!” (uma música louca!), disse o pianista, após sua execução. Com o microfone na mão, brincou com a platéia, comentou que tocava com uma banda maluca e lembrou que veio ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1968, para passar sua lua-de-mel. “Estou muito feliz de estar novamente no Brasil em 40 anos”, disse Hancock, que aparentemente se esqueceu da apresentação que fez no Tim Festival, em 2006.

O teclado-guitarra

Após brincar com o excelente guitarrista Lionel Loueke, nascido em Benin, na África, Hancock anunciaria uma nova e criativa versão, com 17 complicados compassos, de “Watermelon Man”, de seu álbum Head Hunters (1972). No Rio, como nos maiores festivais de jazz do mundo, Herbie largou o piano e foi à frente do palco com um teclado branco em forma de guitarra e “solou”, desafiando os outros músicos para ver quem fazia os acordes mais imprevisíveis.

Atônita no começo da noite, a platéia já batia palmas empolgada com a impressionante presença de palco do norte-americano e de seu grupo, que variava do groove ao free-jazz em segundos. Enquanto tocava o instrumento, chamado pela imprensa estrangeira de key-tar, ou teclado-guitarra em bom português (algo com a forma de uma gatorra, o bizarro aparato de Tony da Gatorra), não era incomum ver Hancock soltando sonoras gargalhadas. “Esta música é quase impossível!”, dizia.

As vocalizações do funk norte-americano dos anos 70 e do hard-bop também tiveram espaço no eclético set do quarteto, que fez uma revisão de “Stitched Up”, composição do cantor pop John Mayer, que fez turnê com Hancock em 2005. O vocal do baixista Nathan East acabaria por animar os presentes no Vivo Rio. A escolha da música é mais uma prova de que Hancock passeia pelos mais variados estilos, não se prendendo a amarras comuns a muitos músicos carimbados.

River: The Joni Letters

Eis que o que muita gente esperava ou achava esperar, viria logo em seguida com duas músicas do novo trabalho. No álbum ganhador do Grammy (ele já levou outros 12, em categorias diferentes), Hancock homenageia a cantora e compositora canadense Joni Mitchell, que tocou ao lado de nomes de peso como Rolling Stones, Jimi Hendrix e o próprio Herbie.

Como não trouxe Norah Jones ou Tina Turner, com quem gravou o disco vencedor do Grammy, que também conta com a voz de Leonard Cohen, Herbie convocou ao palco a norte-americana Sonia Kitchell, que cantou “River” e “All I Want”. Durante a participação da cantora, a platéia, com razão, acabou ficando um pouco sonolenta.

Mas o incômodo foi quebrado logo com um meddley solo do guitarrista de Benin, considerado uma das grandes revelações dos últimos anos. Loueke cantava em seu idioma natal e abusava dos tappings, técnica de tocar a guitarra com uma ou duas mãos, criando notas de escala em alta velocidade. “Ele é uma maravilhosa sopa internacional de música”, definiu Hancock, que faria um belo solo de piano na seqüência.

O grande momento da noite

Foi no final da noite que a festa alcançou seu ponto máximo. Sem querer entregar o ouro de bandeja, Hancock escolheu, para depois de quase uma hora e meia de show, duas pérolas: “Cantaloupe Island”, do álbum Empyrean Isles (1964) e “Chameleon”, do Head Hunters (1973).

Na primeira música, de um dos LPs de jazz mais influentes dos anos 60 (período em que gravaria seu primeiro trabalho para o cinema, a trilha sonora de Blowup, de Michelangelo Antonioni) e recriada inúmeras vezes, uma delas pelo grupo US3, que mescla jazz e rap, Hancock mostraria, com intensos sorrisos, a inventividade do jazz. O pianista estava tão feliz que mais parecia uma criança experimentando um brinquedo novo.

Já “Chameleon”, com sua inigualável linha de baixo funkeada e a bateria quebrada de Vinnie Colaiuta, levantou parte da platéia, que transformou o Vivo Rio em uma pista de dança. Tendo o nome retirado de uma música do camaleônico Frank Zappa, “Chameleon” fechou a noite da melhor forma possível e, com toda a certeza, quem foi ver o “vencedor do Grammy”, saiu com muito mais do que isso.

É engraçado, mas me acostumei - ou algo perto disso - com os soldados da Polícia Militar em patrulhamento ostensivo pelas ruas da cidade. Fuzil é bobagem. Viatura com a lataria marcada de balas não é novidade. Dia desses liguei para um soldado da PM para apurar uma operação e ouvi o cidadão gritando em meio a uma chuva de balas. O barulho era nítido. Outra vez estava vindo para o trabalho e, nas proximidades da Rocinha, um helicóptero Águia da Polícia Civil passou a dez centímetros do capô do meu carro. Pendurados para fora, dois policiais do Bope com metralhadoras e uma rede usada para retirar a maconha apreendida na favela.

Dias depois, um soldado tentou me extorquir porque eu estava falando no celular enquanto dirigia. Pedi para ele me multar, mas o cara queria fazer “um acordo”. Ofereci um nota furada e molhada de R$ 5. Ele olhou com nojo e me liberou. Nessas horas dá vontade de ser multado. Outra vez, na Lapa, cerca de 15 policiais cercavam dois bandidos e riam enquanto comiam um cachorro quente. Um engravatado passava do lado e elogiava a camisa do Flamengo do camelô, os dois suspeitos no chão gritando.

Se pararmos para ver a que ponto a situação chegou - e o jornalismo diário colabora na criação dessa perspectiva - vemos que o quadro é, e vamos encarar o clichê, de guerra. Jornalistas torturados, balas perdidas, latrocínios e agora soldados do Exército utilizando o monopólio da violência instrumental contra três jovens do Morro da Providência, na Zona Portuária.

Ontem, passando pela Avenida Niemeyer, vi um cidadão completamente encapuzado, uniforme da PM, metralhadora na mão. Só dava para ver os olhos, o resto do corpo estava camuflado. Quem passava por ali com menos atenção dificilmente veria o sentinela. Uns metros depois, duas viaturas embarreiradas nas proximidades da Rocinha.

Acho que eu tenho mais medo da polícia que dos bandidos.

Mulher abandonada

Vestindo uma camisa branca muito larga, um pouco suja, mas com certa dignidade, primeiro ela se aproximou da senhora logo à frente. Estendeu as mãos e disse alguma coisa no pé do ouvido, esperando ser ouvida. Não foi. Depois do gesto, olhou em volta, meio envergonhada, as linhas de ônibus que passavam: 415, S20, 474, 2113… Arrastava as sandálias gastas pelo chão e coçava o rosto com dificuldade, esfregava com força as sobrancelhas pretas bastante finas e apertava os dedos contra a cintura como se precisasse de algum conforto.

O rosto dela, muito magro, não inspirava muita comoção, mas certamente causava algum desconforto. Ela sorria com angústia. A senhora com quem havia falado entrava, então, no ônibus de luxo de um condomínio num bairro muito distante dali. Barramares o nome. Como se estivesse tomando coragem, veio falar-me. Chegou de mansinho, de um jeito tão estranho quanto suplicante. Olhava com desespero e novamente estendeu a mão.

- Desculpa rapaz… preciso da sua ajuda. Meu marido me abandonou.

Uns outros, logo atrás, riram com a frase. Se abandonou, por que ela estava ali? O que realmente aconteceu? Quem garantiria que ele tinha abandonado-a e em quais circunstâncias? As tantas perguntas que os demais faziam a irritaram, que logo virou as costas e saiu correndo, profundamente incomodada. Não se sabe exatamente o que aconteceu com aquela mulher das sobrancelhas finas e do rosto pintado de angústia. O mais curioso: era Dia dos Namorados.

O pai do surrealismo no cinema sorriria, sarcástico, com o último evento do presidente Lula no Rio de Janeiro. Antes do pronunciamento oficial dos participantes da mesa - entre eles ex-ministros, o próprio presidente, um prêmio nobel em economia de ultradireita, um professor emérito de uma universidade norte-americana e um colunista do New York Times - o mestre-de-cerimônias ordenou que todos ficássemos de pé para a proclamação do hino nacional.

A pontinha de patriotismo forçado que aquela cena provocou na platéia foi de chamar a atenção, porque muitos levantaram-se sem muita vontade de suas poltronas brancas, acolchoadas, do auditório gélido do BNDES. Eis que, ao contrário do que todos esperávamos, uma flautista notoriamente desconhecida foi convocada ao palco para a execução do hino. Visivelmente nervosa - suas pernas tremiam - a moça sofregou para cuspir algum ar dentro daquela haste de metal.

Ela apertava os botõeszinhos com uma dificuldade impressionante e, com toda a certeza, suava feito o diabo dentro daquele blazer preto engomado. As notas do hino nacional eram sopradas para fora e, vale salientar, não chegavam muito animadas aos ouvidos nada atentos daquela platéia feita de embuste. Ninguém tinha interesse em estar ali e provavelmente ninguém tinha interesse em discutir o assunto, a não ser alguns poucos. A flautista brigava com o nervosismo e o pânico da persona famosa que estava logo ao seu lado, o presidente, e se debatia com o “deitado eternamente em berço esplêndido”.

No meio da execução, uma jornalista espirituosa solta que “alguém deve estar comendo a coitada da flautista”, comentário logo seguido por um “eu dava um caldo”, de um outro colega de profissão já castigado pela idade e certamente com muitos graus de miopia. Depois da apresentação surrealista, da mocinha vestida de blazer preto, com as pernas bambas e o sorriso amarelo, uma ilustre desconhecida que provavelmente alguém estava comendo, os burocratas da máquina pública voltaram-se ao palanque para anunciar os mais novos planos revolucionários de desenvolvimento nacional que, em segundos!, trariam o desenvolvimento que nunca apareceu.

Tal cenário, recheado de canapés murchos, sucos de uva em taças repetidas e conversas de canto de auditório, regadas a brigas entre repórteres pelo furo do dia seguinte, completado com a alegoria da flautista muda, dariam uma bela risada naquele que fez El Angél Exterminador. Com mais dose de provocação e consciência política, obviamente. Inclusive, “A Flautista Muda” acaba até sendo compatível com as obras do espanhol que, viciado em álcool, morreu de cirrose. Uma pena.

El mundo frio

SEQÜÊNCIA 1.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Pés engelhados em superclose. É possível ver as ranhuras dos dois pés, muito brancos, que bóiam dentro de uma piscina azul. Corta. Câmera em médio plano de um homem boiando, de bruços, dentro da piscina. De shorts igualmente azuis como a piscina. Ele não está respirando. A câmera mostra uma situação de quase-morte. O personagem está boiando, sem demonstrar qualquer reação. Está de noite e apenas uma fraca lâmpada ilumina o ambiente. Numa cadeira à beira da piscina, um par de sandálias, uma toalha dobrada, um cartão e um tocador de mp3.

SEQÜÊNCIA 2.
EXT. AVENIDA – NOITE

Na avenida ao lado do edifício onde se encontra a piscina, não há nenhum carro ou pedestre. O vento balança alguns coqueiros da localidade e há poucas nuvens no céu.

SEQÜÊNCIA 3.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Close na lateral do rosto da personagem, imerso na água. A situação, estática, continua por mais alguns instantes, até que surgem algumas poucas borbulhas dentro d’água. Depois dessas primeiras, que surgem vagarosamente, outras começam a aparecer, com mais violência e velocidade. O personagem começa a se debater dentro da piscina, sem ainda levantar a cabeça de dentro da água. A quantidade de bolhas aumenta progressiva e assustadoramente. Ele começa a bater com os braços na água, em profunda agressividade, até que levanta a cabeça e respira desesperadamente com a boca, fazendo um barulho de quem estava à beira de um afogamento e encontrou oxigênio no último instante.

A câmera foca o rosto do homem, de aparência jovem, cabelos escuros jogados sobre o rosto, que puxa o ar com força, enchendo os pulmões, até começar a respirar com normalidade. Apoiando os dois punhos na borda da piscina, se ergue da água. Num enfoque minimalista, planos dos dois braços do personagem, das suas costas e dos shorts azul marinho.

O personagem se enxuga com a toalha e senta na cadeira ao lado da mesa da piscina. Abre uma carteira de cigarros e começa a fumar, olhando para a água. Passa as mãos nos cabelos, olha o relógio, enxuga o visor, olha novamente, conferindo a hora. Permanece sentado, tragando a fumaça, com o olhar vidrado na água, até que coloca os fones do aparelho de mp3 nos ouvidos e levanta da cadeira, pegando o cartão e calçando as sandálias.

SEQÜÊNCIA 4.
INT. SAGUÃO DO HOTEL – NOITE
(INSERT DE TRILHA)

Ouvindo música, o personagem caminha, sem camisa, com a toalha jogava sobre os ombros, pelo saguão do hotel. As sandálias fazem barulho característico de pés encharcados. Um hóspede passa por ele e o cumprimenta com a cabeça. Ele finge um sorriso constrangido em retribuição e chega ao elevador.

SEQÜÊNCIA 5.
INT. ELEVADOR/CORREDOR DO ANDAR – NOITE
(AINDA NA TRILHA, QUE SE DESFAZ NA PERGUNTA DA MULHER)

Entra. Aperta seu andar e olha novamente o relógio. Ao sair do elevador, se encaminha até a porta de sua suíte e a abre com o cartão. Uma MULHER, do quarto vizinho, aparece no corredor. Bonita e arrumada, olha para ele com ternura. Ela é mais velha do que ele.

MULHER
Oi. Está tudo bem?

PERSONAGEM
(evasivo)
Sim, claro.

MULHER
Está morando por aqui ou só passando uns dias?

PERSONAGEM
Alguns dias, acho.

MULHER
Ah, aqui é ótimo. Você vai gostar, já estava aproveitando a piscina, veja só. Se precisar de alguma coisa, estou aqui. Seja bem-vindo.

PERSONAGEM
Obrigado.

Com essa resposta, entra na suíte. A mulher olha para a porta que acabou de se fechar por uns instantes, como se estivesse entendendo a personalidade daquela pessoa. Depois, se encaminha para o elevador.

SEQÜÊNCIA 6.
INT. SUITE – NOITE

O personagem acende o interruptor e entra no banheiro.

Foto de Claudio Lara

Para quem não sabe, o metrô do Rio tem um vagão exclusivo para mulheres, que opera das 6h às 8h e das 18h às 20h. O objetivo da medida é evitar que as mulheres sofram abusos sexuais, eventuais cantadas cretinas ou coisa parecida nos horários de pico (sem trocadilho!). Os avisos da cor rosa com os horários restritos estão em absolutamente todas as estações, informando que há um vagão específico para os sexo feminino. Homem não entra, literalmente. Eu sabia desse detalhe, claro. Tinha andado algumas dezenas de vezes de metrô e entre ler as edições do tablóide Meia Hora - vendido nas plataformas e adornado com capas que variam de Grazi com dengue a Ronaldinho e os travestis - e os avisos espalhados pelo local, eu preferia me concentrar neles.

Eis que no dia relatado, por causa do esquizofrênico trânsito carioca, cheguei atrasado na estação de Botafogo. Aquele mar de gente entrando na estação ao mesmo tempo, engravatados, mauricinhos, mulheres bem arrumadas, idosos, todos se acotovelando por mais um pouquinho de espaço na escada rolante. Sempre que eu vejo essas cenas lembro das aulas de física, de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo”. Bom, eles até podem. Mas, er… deixa pra lá, voltemos ao metrô. Depois de uns bons vinte minutos na fila para comprar o bilhete, olhei para baixo e vi que o trem tinha acabado de chegar. Com algum cuidado para não despencar das escadas, corri para a plataforma e tentei, em vão, entrar nos primeiros vagões. Seiscentos homens de negócios jogavam suas pastas de executivo uns nos outros e se empurravam desesperadamente. No meio desse processo, o maquinista, sádico, acionou o aviso de que o metrô iria partir.

Na agonia, entrei, com dois homens, no primeiro vagão que estava menos vazio. Um usava um boné cinza virado para trás, camiseta regata e mascava chiclete. O outro empunhava uma pasta murcha e vestia uma camisa social marrom, gasta pelo tempo. A sensação de ter conseguido embarcar íntegro é comparável àquelas vezes em que voccê está na fila de espera do dentista e depois de três horas e duas edições de Caras é chamado. Inevitável não olhar para os demais pacientes e sorrir com cara de “ganhei”.

Com esse pensamento na cabeça, o metrô já em movimento, olhei, como qualquer mortal, em volta. Umas sessenta mulheres: loiras, ruivas, morenas, gordinhas, magras, queimadas de sol, de salto alto, sandália baixa, bolsa de bolinhas, mochila, óculos de borda grossa, óculos escuros, blazer, camisa social, saia vermelha… Um mar de pernas, uma profusão de perfumes doces e um ambiente leve. Achei estranho. Metrô do Rio, às 7h30, só eu e dois homens nesse vagão? Uma das mulheres começou a me encarar com cara feia e o cara do chiclete a se coçar, inquieto. Alguns segundos depois, outra mulher me encarou, desta vez sorrindo. O operador anunciou que a próxima estação seria a do Flamengo. As portas abriram, ninguém saiu. Entram mais dezesseis mulheres. Nenhum homem. Acordado do estado de torpor, percebi que estava no exclusivo e tão comentado vagão das mulheres. Já tinha ouvido falar dele, sempre figura folclórica em mesas de bar e conversas de corredor.

Quando o metrô chegou na terceira estação, Largo do Machado, os meus dois companheiros de aventura saíram do carro, me deixando sozinho com aquele mar feminino. Me senti o último homem da terra. O fato é que, a todo momento, achei que um deles fosse comentar comigo, com ar canalha, algo como “somos caras de sorte, não?”. Fiquei na dúvida se eles tinham realmente saltado na estação ou fugido da situação. Impassível, esperei que o trem parasse mais cinco vezes até eu descer. Antes de sair do vagão, eram tantas mulheres em volta e um aperto tão grande, que eu me senti abusado em pleno vagão exclusivo para as mulheres. Já na saída da estação, vi as centenas de engravatados saindo dos demais carros do metrô, masculinos, com suas valises e sapatos bem engraxados. Preferi a minha viagem.

Texto retirado do meu antigo blogue, escrito em outubro de 2007.

Era sexta-feira à noite. Vesti a minha melhor camisa, aquela azul listrada que ela adorava, e cheguei mais cedo do trabalho. Entrei em casa na ponta do pé, mas ela ainda não havia chegado. Melhor. Arrumei a casa, varri o chão e organizei a mesa da sala, aquela que só era usada para ocasiões especiais. Tirei as revistas de cima do vidro e coloquei uma toalha rendada daquelas que ela comprava quando ia para o interior ver a família. Dentro de um embrulho que eu trouxe, várias velas aromatizadas. Ela adora as velas aromatizadas, sempre que ia ao shopping procurava as mais coloridas e com os melhores aromas.

Coloquei um avental para não sujar a camisa e fui para a frente do fogão de quatro bocas que tinha ganho do Márcio na ocasião do casamento. Grande Márcio, o único defeito dele era torcer para o Botafogo. Dentro de uma das panelas de inox, um pedaço suculento de filé, imerso em um molho maravilhoso. Na outra panela, crepitante, um molho de mostarda igual ao do livro de receitas borbulhava, ansioso para encontrar a carne. Na terceira boca do fogão, macarrão. Eu nem gostava tanto assim de macarrão, mas ela era apaixonada por massa, por ela a gente comia massa todo dia. Vai ver é coisa da ascendência italiana. Um pouquinho de azeite, pimenta e um punhado de queijo ralado dentro de um pote de prata. Arrumei a comida na mesa e acendi três velas laranjas. Eram tão laranjas que dava vontade de comê-las.

O perfume no ambiente era afrodisíaco. Ela vai ficar tão impressionada que vai me atacar, com certeza. Faz quase três dias que não nos vemos direito, ela sempre preocupada com as coisas da agência, andava trabalhando em turno dobrado. Dava até pena. O sexo já não era a mesma coisa de quando a gente namorava. Antes era uma loucura, todos os dias, em qualquer lugar, ambiente público ou não. Eu até ficava meio incomodado com aquilo, mas ela sabia me excitar como ninguém. Adorava quando, depois do sexo, ela encostava a cabeça no meu peito e ficava lembrando de como a gente tinha se conhecido e de como eu sabia deixar ela louca.

Me lembro como se fosse hoje. Tinha ido ao cinema assistir um filme asiático. Não sei exatamente qual era o dia, mas era dia de semana. Não tinha ninguém na sessão, só eu. Depois eu vi que ela vinha com um livro na mão e usava óculos de borda grossa. Adoro mulher que usa óculos de borda grossa. Estava com uma saia vermelha e aqueles sapatos franceses. Já se vestia como uma publicitária. Sentou perto de mim e deu um sorriso tímido, daqueles de canto de lábio. Não resisti e acabamos casando.

Lembrava do passado sentado no sofá, tomando o vinho chileno que tinha ganho do sogro, quando ouvi o barulho de chave na porta da frente. Corri para a cozinha, esperando ela entrar. Luiza vestia preto, dos pés a cabeça, e tinha uma aparência de acabada. O tempo e o trabalho vão mutilando as pessoas, mas ela continuava linda. Minha Luiza parecia personagem dos filmes noir da década de 40, tinha até sombra nos olhos.

Ela entrou e viu a mesa repleta de adornos e com os pratos que ele havia preparado. Sentou na cadeira e ficou parada, olhando para a vela laranja. Apagou o fogo com um sopro e depois tornou a acendê-lo, usando a chama de outra vela. Ela nem tinha me visto ainda, parecia cansada com alguma coisa. Resolvi chegar por trás e coloquei as duas mãos sobre os ombros dela. Era um bom massagista, sabia brincar com os dedos tão bem que ela soltou a bolsa e a pasta que carregava e se encolheu toda. Depois, tirou minhas mãos dos ombros e pediu para eu sentar na cadeira ao lado. Só depois que sentei eu vi que a maquiagem preta que usava no rosto estava toda borrada. A mancha negra que escorria por baixo dos olhos chegava até a altura da boca vermelha e seu corpo estava desfalecido na cadeira, parecia que estava morta. Fiquei comovido com aquilo e a abracei.

- Luiza, linda, a gente pode comer outro dia. Você não quer tomar banho e depois ficar deitada comigo?, perguntei.

Ela não respondeu nada, ficou só olhando para baixo, com a boca tremendo e uma lágrima escorrendo pelo olho esquerdo. Eu continuava abraçando-a, sem entender nada, quando ela resolveu falar a primeira coisa em mais de dez minutos.

- Eu não te amo mais, desculpa.
- Como?, perguntei, chocado. Parei de abraçá-la.
- Desculpa, Fábio. Eu simplesmente não consigo mais, não sinto mais aquilo por você.
- O que aconteceu? Alguma vez eu te tratei mal, te ofendi? Eu te amo Luiza.
- É que estou apaixonada.

Fábio levantou da cadeira e acendeu um cigarro. Suas mãos tremiam.

- Apaixonada por quem, porra?
- Prefiro não falar.
- Já que é para me foder, me fode direito. Por quem, porra?, tornei a perguntar, transtornado com a notícia.
- Pelo Márcio.
- Puta que pariu, Luiza. Pelo Márcio? Pelo meu melhor amigo?
- Ninguém comanda isso, Fábio. Desculpa, mas eu não consigo mais.

Luiza levantou-se e deu uma última olhada na mesa, disse ter adorado as velas laranjas e foi embora. Fábio estava no segundo cigarro. Sentou na cadeira, serviu-se e comeu o espetacular filé ao molho mostarda. Não colocou macarrão. Depois de comer, ficou sentado vendo as chamas consumirem as velas.

Sobre a continuação do texto anterior, talvez eu publique, talvez não. É que virou roteiro, aí tem os lances de copyright.

A Entrega

- Aloa.

- Kléber?

- Quem?

- É o Kléber quem tá falando?

- Ligou errado, amigo.

- O caralho. Eu sei que o Kléber tá por aí. Chama ele.

Desliga o telefone. Dois minutos depois.

- Aloa.

- O Kléber?

- Quem?

- Quero falar com o Kléber, companheiro.

Desliga.

Depois da segunda negativa, SÉRGIO colocou o telefone no gancho e acendeu um cigarro Marlboro. Dizia que preferia a marca porque era forte na medida certa e deixava a voz rouca, como Clint Eastwood nos filmes de Sergio Leone. Levantou-se da poltrona de couro amarelado e começou a caminhar pelo quarto. Estava procurando o Kléber há quase três dias e nada. Já cogitava desistir da operação. Com o cigarro na ponta dos dedos, Sérgio foi até a mirrada janela do quarto de hotel para sentir um pouco da brisa da tarde. O quarto era pequeno, devia ter uns oito metros quadrados, e fazia um calor desgraçado. Sem camisa, suava como um maratonista. Olhando pela janela, viu a mesma coisa de sempre, carros, trânsito, gente e aquela coisa toda. Desistiu de olhar, foi até o armário, vestiu uma camisa laranja e uma jaqueta preta. Normalmente usava cores chamativas. Abriu a gaveta, pegou um envelope pardo e sua arma. Sérgio acendeu outro cigarro no corredor mal iluminado do hotel e olhou para o relógio: 16h. Estava atrasado, ficou muito tempo tentando contatar o Kléber. Enquanto caminhava, passava as mãos pelo papel de parede cafona e ajudava a arrancá-lo ainda mais da parede. Entrou no elevador, uma MULHER estava dentro. Sérgio olhou para ela e sorriu, um gracejo. A mulher virou a cara. Sérgio coçou a barba e, não se dando por vencido, ajeitou a cueca, aproveitando para mexer nos testículos. Esperava que ela ficasse interessada naquilo. Não ficou. Já na rua, dia nublado, Sérgio foi até um orelhão. Dessa vez uma voz feminina atendeu o telefone.

- Aloa.

- Quero falar com seu chefe.

- Aloa?

- Preciso falar com o Kléber.

- Quem é?

- Diz pra ele que é o Loiro.

- Loiro?

- É.

- Por que Loiro?

- O Kléber. Chama o Kléber, eu sei que ele tá por aí.

- Não tem Kléber por aqui, querido.

Desliga.

Incorformado, Sérgio jogou o telefone contra a cabine do orelhão e atraiu a atenção de um engravatado que passava por ali. “Tá olhando o que, veado? Perdeu alguma coisa aqui?”. O homem desviou o olhar, assustado. Sérgio estava preocupado. Passou o dia tentando falar com o contato, mas não obteve retorno. Insistente, tornou a ligar. Dessa vez foi a mesma voz de homem das primeiras ligações.

- Aloa.

- Olha aqui, filho da puta. Preciso falar com o Kléber. Diz pra ele que é o Sérgio, o Loiro.

- Não tem Kléber aqui não, amigo.

- Seguinte, eu tenho um encontro com ele em uma hora. Se ele não aparecer eu descumpro o acordo, entendeu?

- Que acordo?

- Descumpro o acordo, entendeu? Não estou brincando. Você tá me entendendo?

- O que acontece se você descumprir o acordo?

- O recado está dado. Eu tou falando sério. Se ele não aparecer em uma hora, vai dar merda.

- Ele deveria aparecer onde?

- Kléber, filho da puta, é você quem tá falando? Tá me sacaneando?

- Não tem Kléber aqui, companheiro.

- Já avisei, uma hora.

- Espera um instante.

A mesma voz feminina de antes volta do outro lado da linha.

- Aloa.

- Chama o Kléber de volta.

- Amor, aquele não era o Kléber.

- Você acha que eu não sei que vocês tão me sacaneando, que querem me foder?

- Você nem sabe como é a voz do Kléber.

- Eu já disse o que tinha que dizer. Fui avisado ontem de madrugada que a entrega seria hoje, às 17h.

- Você tá com o material aí?

- Você sabe que eu tou.

- O Kléber mandou avisar que vai estar no lugar marcado às 17h, mas disse que não confia em você.

- Coloca esse filho da puta na linha.

- Ele saiu.

- Coloca esse filho da puta na linha.

- Calma, querido.

- Calma é o caralho. Ele sabe onde marcamos. O JORGE ligou pra mim e pra ele. Ele sabe.

- Amor, o Kléber anda meio ruim da cabeça, ele não sabe exatamente onde ficou marcado.

- Eu só falo se você botar o Kléber na linha.

- Aloa.

- Kléber?

- O Jorge não acertou um lugar comigo, ele disse pra eu esperar as tuas instruções.

- O Jorge disse isso?

- Falou que te ligou ontem de madrugada e que você me procuraria no fim da tarde para me passar as instruções da entrega.

- Praça Quinze, em uma hora.

- Praça Quinze, em uma hora, ok.

- Se atrasar, você já sabe o que acontece.

- Eu sei.

Desliga.

(continua)

Terminei de organizar as caixas da mudança ontem. Joguei uma quantidade imensa de papel e jornais no lixo e nesse processo achei uma pasta relativamente antiga com todas as minhas reportagens publicadas nos dois jornais onde trabalhei. À medida em que ia passando o olho pelos títlulos das matérias, confirmei que um caderno de Cidades não é nada fácil. Olhando de fora, sem estar imerso na loucura do jornalismo diário, é possível ter uma noção melhor de como a sociedade é complexa e muitas vezes incompreensível. E que a cidade em si é um organismo descontrolado, autônomo. Observá-la é tarefa de uma cobertura segmentada, violenta, invasiva e necessária: o hardnews. Como estagiário, fiz de chacinas e sequestros a projetos sociais de fazer os olhos marejarem.

“Jovem estrangula mulher e se mata”; “Cabeleireiro é assassinado a facadas em Casa Amarela”; “Três baleados e quatro esfaqueados no Sertão”; “Apreensão de cocaína cresce 57%”; “Bimotor explode em Alagoas”; “Chuva destrói teto de casarão e inunda ruas”, foram só algumas das reportagens que mais me chamaram atenção.

Lembro da primeira vez que vi um corpo por causa da profissão, o de uma idosa carbonizada viva no bairro do Engenho do Meio. Antes de descer do carro do jornal, dei de cara com aquela tradicional aglomeração de curiosos, a imensa maioria crianças, tentando ver alguma coisa identificável da casa, incendiada naquela madrugada. Uma viatura da PM, alguns agentes da polícia científica e o camburão do Instituto de Medicina Legal. Um dos peritos, ao me ver, começou a relatar o fato e me colocou para dentro da casa, no lado de lá do cordão de isolamento, que separava as cinzas e a multidão. Enquanto ele me repassava as informações, íamos caminhando pelos poucos cômodos do imóvel até eu me deparar com a mulher, inerte, engolida pelas cinzas no chão. Não consegui identificar uma pessoa ali. Nauseante. Depois, descobri que uma falha no motor do ventilador causou um circuito que, em contato com as cortinas e os lençóis da idosa, causaram as chamas. Ela não conseguiu chamar os bombeiros pois tomava remédios controlados que lhe causavam uma sonolência impressionante.

Minha primeira matéria policial foi sobre uma senhora que foi queimada viva no Engenho do Meio. Dentro da casa dela, um outro repórter, de uma emissora de televisão local e com anos anos de profissão, sacou um celular e começou a fotografar o corpo. “Para depois mostrar pro pessoal da redação”, disse. Quando os peritos do IML retiravam o cadáver, as crianças que rondavam a casa incendiada pulavam umas nas outras para tentar ver o mínimo que fosse de gente dentro daquele saco branco.

(continua)

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