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Entradas do Março 2008

Manu Chao sabe das coisas

Março 30, 2008 · 1 Comentário

Depois de convencer meus pais que não sofreria nenhum atentado terrorista ou seria sequestrado, saí do hotel por volta das 22h30. Estava bastante atrasado e não tinha comido nada desde às 13h. Já dominava o sistema de metrô local, mas durante a noite a coisa muda um pouco de figura, trens que vêm deixam de vir, linhas que normalmente não páram resolvem parar e as estações ficam apinhadas de gente não muito bonita. Gastos 4 dólares num suco de laranja (acredito que o mais caro de toda a minha vida), desci na 51st Station, numa esquina da Lexington Avenue. Na estação, muitas jovens maquiadas, vestindo roupas aparentemente caras, prontas para mais uma noite, dividindo espaço com negros trajando calças largas, bonés de hip hop e pesados anéis em praticamente todos os dedos. Fiquei paradinho ali, com meu chapéu de Manu Chao, comprado no dia anterior. Era horrível, realmente grotesco, mas protegia do frio e evitava que minha sinusite evoluísse para uma pneumonia. Além disso, me dava uma aparência de mendigo caucasiano, o que veio a calhar, pois ninguém mexeria comigo. E ninguém mexeu. Depois de uns 25 minutos e outros 25 dentro do trem, pane elétrica no vagão. Que beleza. Cerca de 80 pessoas apertadas em um espaço mínimo, morrendo de calor, todas com casacos maiores que a vida, esperando que a composição se movesse. Pelos vidros engordurados, duas paredes de pedra, pixadas, uma em cada lado. Se Hitchcock quisesse, faria algumas belas cenas por ali. Até Michael Bay (quem sabe não apareceriam baratas gigantes?) tiraria alguns momentos da situação. Enquanto isso, os funcionários do metrô insistiam pelo microfone que qualquer ação suspeita ou pacote abandonado deveria ser relatado às autoridades competentes.

Alguma demora depois, cheguei na Canal Street Station, entre a Tribeca e o folclórico bairro de Chinatown, e encontrei o Knitting Factory, local do show que fez eu me deslocar algo como 40 quilômetros rumo ao desconhecido naquela noite. Na porta do bar, um carro de polícia com a sirene ligada e um adolescente que falava espanhol sendo carregado, bêbado, por duas jovens saídas de A Noite dos Mortos Vivos, clássico de terror do Romero. Me enrolei para encontrar o passaporte, mas acabei comprovando que era maior de 21 anos e ganhei uma pulserinha verde, o que me dava direito a beber no local. Os músicos do God Is An Astronaut, banda irlandesa de post-rock (isso de post-rock rende um post a parte) felizmente ainda não tinham começado o show e uns roqueiros de Massachusetts estavam no palco fazendo um barulho qualquer enquanto espancavam as guitarras. Irepress o nome do negócio. Enquanto eles tocavam, resolvi explorar o lugar. E como estava num pub, a situação pedia uma Guiness (US$ 7!). A vida noturna nova-iorquina, ao menos nesse dia, se mostrou muito interessante. Em se tratando de um show de rock desconhecido e bizarro pra muita gente, o lugar estava cheio, graças a força de divulgação da internet, vide Myspace, Lastfm, Rateyourmusic e a programação cultural da cidade. Vários indianos ainda vestindo paletós conviviam harmoniosamente com a mais bem arrumada patricinha norte-americana. Não vi um beijo sequer, apenas casais de mãos dadas, juntos, mas já sabia dessa diferença cultural. Lá pelas 1h40, armam um telão e um projetor para a atração principal da noite. Com os instrumentos em punho, o power trio irlandês fez, como era de se esperar, um som maravilhoso, envolvente, cheio de camadas, denso. No telão, algumas imagens de Bush e outras de um chimpanzé sorrindo. Durante as músicas, acabei ficando amigo de um inglês, morador de Manchester, Gareth.

Ele me confessou que também estava sozinho por lá e que soube do show pela agenda de eventos Lastfm. Cabeça raspada e cara de nazista, ele se mostrou bastante simpático, revelou gostar de bandas que teoricamente pouquíssima gente gosta e contou que faz faculdade de Direito. Estava em Nova Iorque para visitar o pai e aproveitou para acompanhar o show, que o fazia se mover de trás para frente, como um grande João-bobo. Gareth disse que gostava de Manchester e que Leeds era uma cidade “dura”, para pessoas duronas, como nos filmes do DeNiro. Também aproveitou para dizer que odiava Londres e que a namorada dele era muito baixinha. No fim da conversa, enquanto caminhávamos até a Canal Street Station, em plena madrugada, frio assustador, disse que queria conhecer o Brasil. A temperatura beirava os -2, mas o gorro do Manu Chao me protegia. Depois de nos despedirmos, esperei cerca de 45 minutos pelo próximo trem. Na plataforma, cinco mexicanos que me encaravam e um americano arrumadinho que se esforçava para parecer mau – cuspia no chão, andava em círculos, fazia cara de revoltado.

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