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Entradas do Abril 2008

O amor é uma vela laranja

Abril 24, 2008 · 4 Comentários

Texto retirado do meu antigo blogue, escrito em outubro de 2007.

Era sexta-feira à noite. Vesti a minha melhor camisa, aquela azul listrada que ela adorava, e cheguei mais cedo do trabalho. Entrei em casa na ponta do pé, mas ela ainda não havia chegado. Melhor. Arrumei a casa, varri o chão e organizei a mesa da sala, aquela que só era usada para ocasiões especiais. Tirei as revistas de cima do vidro e coloquei uma toalha rendada daquelas que ela comprava quando ia para o interior ver a família. Dentro de um embrulho que eu trouxe, várias velas aromatizadas. Ela adora as velas aromatizadas, sempre que ia ao shopping procurava as mais coloridas e com os melhores aromas.

Coloquei um avental para não sujar a camisa e fui para a frente do fogão de quatro bocas que tinha ganho do Márcio na ocasião do casamento. Grande Márcio, o único defeito dele era torcer para o Botafogo. Dentro de uma das panelas de inox, um pedaço suculento de filé, imerso em um molho maravilhoso. Na outra panela, crepitante, um molho de mostarda igual ao do livro de receitas borbulhava, ansioso para encontrar a carne. Na terceira boca do fogão, macarrão. Eu nem gostava tanto assim de macarrão, mas ela era apaixonada por massa, por ela a gente comia massa todo dia. Vai ver é coisa da ascendência italiana. Um pouquinho de azeite, pimenta e um punhado de queijo ralado dentro de um pote de prata. Arrumei a comida na mesa e acendi três velas laranjas. Eram tão laranjas que dava vontade de comê-las.

O perfume no ambiente era afrodisíaco. Ela vai ficar tão impressionada que vai me atacar, com certeza. Faz quase três dias que não nos vemos direito, ela sempre preocupada com as coisas da agência, andava trabalhando em turno dobrado. Dava até pena. O sexo já não era a mesma coisa de quando a gente namorava. Antes era uma loucura, todos os dias, em qualquer lugar, ambiente público ou não. Eu até ficava meio incomodado com aquilo, mas ela sabia me excitar como ninguém. Adorava quando, depois do sexo, ela encostava a cabeça no meu peito e ficava lembrando de como a gente tinha se conhecido e de como eu sabia deixar ela louca.

Me lembro como se fosse hoje. Tinha ido ao cinema assistir um filme asiático. Não sei exatamente qual era o dia, mas era dia de semana. Não tinha ninguém na sessão, só eu. Depois eu vi que ela vinha com um livro na mão e usava óculos de borda grossa. Adoro mulher que usa óculos de borda grossa. Estava com uma saia vermelha e aqueles sapatos franceses. Já se vestia como uma publicitária. Sentou perto de mim e deu um sorriso tímido, daqueles de canto de lábio. Não resisti e acabamos casando.

Lembrava do passado sentado no sofá, tomando o vinho chileno que tinha ganho do sogro, quando ouvi o barulho de chave na porta da frente. Corri para a cozinha, esperando ela entrar. Luiza vestia preto, dos pés a cabeça, e tinha uma aparência de acabada. O tempo e o trabalho vão mutilando as pessoas, mas ela continuava linda. Minha Luiza parecia personagem dos filmes noir da década de 40, tinha até sombra nos olhos.

Ela entrou e viu a mesa repleta de adornos e com os pratos que ele havia preparado. Sentou na cadeira e ficou parada, olhando para a vela laranja. Apagou o fogo com um sopro e depois tornou a acendê-lo, usando a chama de outra vela. Ela nem tinha me visto ainda, parecia cansada com alguma coisa. Resolvi chegar por trás e coloquei as duas mãos sobre os ombros dela. Era um bom massagista, sabia brincar com os dedos tão bem que ela soltou a bolsa e a pasta que carregava e se encolheu toda. Depois, tirou minhas mãos dos ombros e pediu para eu sentar na cadeira ao lado. Só depois que sentei eu vi que a maquiagem preta que usava no rosto estava toda borrada. A mancha negra que escorria por baixo dos olhos chegava até a altura da boca vermelha e seu corpo estava desfalecido na cadeira, parecia que estava morta. Fiquei comovido com aquilo e a abracei.

- Luiza, linda, a gente pode comer outro dia. Você não quer tomar banho e depois ficar deitada comigo?, perguntei.

Ela não respondeu nada, ficou só olhando para baixo, com a boca tremendo e uma lágrima escorrendo pelo olho esquerdo. Eu continuava abraçando-a, sem entender nada, quando ela resolveu falar a primeira coisa em mais de dez minutos.

- Eu não te amo mais, desculpa.
- Como?, perguntei, chocado. Parei de abraçá-la.
- Desculpa, Fábio. Eu simplesmente não consigo mais, não sinto mais aquilo por você.
- O que aconteceu? Alguma vez eu te tratei mal, te ofendi? Eu te amo Luiza.
- É que estou apaixonada.

Fábio levantou da cadeira e acendeu um cigarro. Suas mãos tremiam.

- Apaixonada por quem, porra?
- Prefiro não falar.
- Já que é para me foder, me fode direito. Por quem, porra?, tornei a perguntar, transtornado com a notícia.
- Pelo Márcio.
- Puta que pariu, Luiza. Pelo Márcio? Pelo meu melhor amigo?
- Ninguém comanda isso, Fábio. Desculpa, mas eu não consigo mais.

Luiza levantou-se e deu uma última olhada na mesa, disse ter adorado as velas laranjas e foi embora. Fábio estava no segundo cigarro. Sentou na cadeira, serviu-se e comeu o espetacular filé ao molho mostarda. Não colocou macarrão. Depois de comer, ficou sentado vendo as chamas consumirem as velas.

Sobre a continuação do texto anterior, talvez eu publique, talvez não. É que virou roteiro, aí tem os lances de copyright.

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A Entrega

Abril 15, 2008 · 2 Comentários

- Aloa.

- Kléber?

- Quem?

- É o Kléber quem tá falando?

- Ligou errado, amigo.

- O caralho. Eu sei que o Kléber tá por aí. Chama ele.

Desliga o telefone. Dois minutos depois.

- Aloa.

- O Kléber?

- Quem?

- Quero falar com o Kléber, companheiro.

Desliga.

Depois da segunda negativa, SÉRGIO colocou o telefone no gancho e acendeu um cigarro Marlboro. Dizia que preferia a marca porque era forte na medida certa e deixava a voz rouca, como Clint Eastwood nos filmes de Sergio Leone. Levantou-se da poltrona de couro amarelado e começou a caminhar pelo quarto. Estava procurando o Kléber há quase três dias e nada. Já cogitava desistir da operação. Com o cigarro na ponta dos dedos, Sérgio foi até a mirrada janela do quarto de hotel para sentir um pouco da brisa da tarde. O quarto era pequeno, devia ter uns oito metros quadrados, e fazia um calor desgraçado. Sem camisa, suava como um maratonista. Olhando pela janela, viu a mesma coisa de sempre, carros, trânsito, gente e aquela coisa toda. Desistiu de olhar, foi até o armário, vestiu uma camisa laranja e uma jaqueta preta. Normalmente usava cores chamativas. Abriu a gaveta, pegou um envelope pardo e sua arma. Sérgio acendeu outro cigarro no corredor mal iluminado do hotel e olhou para o relógio: 16h. Estava atrasado, ficou muito tempo tentando contatar o Kléber. Enquanto caminhava, passava as mãos pelo papel de parede cafona e ajudava a arrancá-lo ainda mais da parede. Entrou no elevador, uma MULHER estava dentro. Sérgio olhou para ela e sorriu, um gracejo. A mulher virou a cara. Sérgio coçou a barba e, não se dando por vencido, ajeitou a cueca, aproveitando para mexer nos testículos. Esperava que ela ficasse interessada naquilo. Não ficou. Já na rua, dia nublado, Sérgio foi até um orelhão. Dessa vez uma voz feminina atendeu o telefone.

- Aloa.

- Quero falar com seu chefe.

- Aloa?

- Preciso falar com o Kléber.

- Quem é?

- Diz pra ele que é o Loiro.

- Loiro?

- É.

- Por que Loiro?

- O Kléber. Chama o Kléber, eu sei que ele tá por aí.

- Não tem Kléber por aqui, querido.

Desliga.

Incorformado, Sérgio jogou o telefone contra a cabine do orelhão e atraiu a atenção de um engravatado que passava por ali. “Tá olhando o que, veado? Perdeu alguma coisa aqui?”. O homem desviou o olhar, assustado. Sérgio estava preocupado. Passou o dia tentando falar com o contato, mas não obteve retorno. Insistente, tornou a ligar. Dessa vez foi a mesma voz de homem das primeiras ligações.

- Aloa.

- Olha aqui, filho da puta. Preciso falar com o Kléber. Diz pra ele que é o Sérgio, o Loiro.

- Não tem Kléber aqui não, amigo.

- Seguinte, eu tenho um encontro com ele em uma hora. Se ele não aparecer eu descumpro o acordo, entendeu?

- Que acordo?

- Descumpro o acordo, entendeu? Não estou brincando. Você tá me entendendo?

- O que acontece se você descumprir o acordo?

- O recado está dado. Eu tou falando sério. Se ele não aparecer em uma hora, vai dar merda.

- Ele deveria aparecer onde?

- Kléber, filho da puta, é você quem tá falando? Tá me sacaneando?

- Não tem Kléber aqui, companheiro.

- Já avisei, uma hora.

- Espera um instante.

A mesma voz feminina de antes volta do outro lado da linha.

- Aloa.

- Chama o Kléber de volta.

- Amor, aquele não era o Kléber.

- Você acha que eu não sei que vocês tão me sacaneando, que querem me foder?

- Você nem sabe como é a voz do Kléber.

- Eu já disse o que tinha que dizer. Fui avisado ontem de madrugada que a entrega seria hoje, às 17h.

- Você tá com o material aí?

- Você sabe que eu tou.

- O Kléber mandou avisar que vai estar no lugar marcado às 17h, mas disse que não confia em você.

- Coloca esse filho da puta na linha.

- Ele saiu.

- Coloca esse filho da puta na linha.

- Calma, querido.

- Calma é o caralho. Ele sabe onde marcamos. O JORGE ligou pra mim e pra ele. Ele sabe.

- Amor, o Kléber anda meio ruim da cabeça, ele não sabe exatamente onde ficou marcado.

- Eu só falo se você botar o Kléber na linha.

- Aloa.

- Kléber?

- O Jorge não acertou um lugar comigo, ele disse pra eu esperar as tuas instruções.

- O Jorge disse isso?

- Falou que te ligou ontem de madrugada e que você me procuraria no fim da tarde para me passar as instruções da entrega.

- Praça Quinze, em uma hora.

- Praça Quinze, em uma hora, ok.

- Se atrasar, você já sabe o que acontece.

- Eu sei.

Desliga.

(continua)

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Hardnews é para poucos

Abril 4, 2008 · 4 Comentários

Terminei de organizar as caixas da mudança ontem. Joguei uma quantidade imensa de papel e jornais no lixo e nesse processo achei uma pasta relativamente antiga com todas as minhas reportagens publicadas nos dois jornais onde trabalhei. À medida em que ia passando o olho pelos títlulos das matérias, confirmei que um caderno de Cidades não é nada fácil. Olhando de fora, sem estar imerso na loucura do jornalismo diário, é possível ter uma noção melhor de como a sociedade é complexa e muitas vezes incompreensível. E que a cidade em si é um organismo descontrolado, autônomo. Observá-la é tarefa de uma cobertura segmentada, violenta, invasiva e necessária: o hardnews. Como estagiário, fiz de chacinas e sequestros a projetos sociais de fazer os olhos marejarem.

“Jovem estrangula mulher e se mata”; “Cabeleireiro é assassinado a facadas em Casa Amarela”; “Três baleados e quatro esfaqueados no Sertão”; “Apreensão de cocaína cresce 57%”; “Bimotor explode em Alagoas”; “Chuva destrói teto de casarão e inunda ruas”, foram só algumas das reportagens que mais me chamaram atenção.

Lembro da primeira vez que vi um corpo por causa da profissão, o de uma idosa carbonizada viva no bairro do Engenho do Meio. Antes de descer do carro do jornal, dei de cara com aquela tradicional aglomeração de curiosos, a imensa maioria crianças, tentando ver alguma coisa identificável da casa, incendiada naquela madrugada. Uma viatura da PM, alguns agentes da polícia científica e o camburão do Instituto de Medicina Legal. Um dos peritos, ao me ver, começou a relatar o fato e me colocou para dentro da casa, no lado de lá do cordão de isolamento, que separava as cinzas e a multidão. Enquanto ele me repassava as informações, íamos caminhando pelos poucos cômodos do imóvel até eu me deparar com a mulher, inerte, engolida pelas cinzas no chão. Não consegui identificar uma pessoa ali. Nauseante. Depois, descobri que uma falha no motor do ventilador causou um circuito que, em contato com as cortinas e os lençóis da idosa, causaram as chamas. Ela não conseguiu chamar os bombeiros pois tomava remédios controlados que lhe causavam uma sonolência impressionante.

Minha primeira matéria policial foi sobre uma senhora que foi queimada viva no Engenho do Meio. Dentro da casa dela, um outro repórter, de uma emissora de televisão local e com anos anos de profissão, sacou um celular e começou a fotografar o corpo. “Para depois mostrar pro pessoal da redação”, disse. Quando os peritos do IML retiravam o cadáver, as crianças que rondavam a casa incendiada pulavam umas nas outras para tentar ver o mínimo que fosse de gente dentro daquele saco branco.

(continua)

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