Terminei de organizar as caixas da mudança ontem. Joguei uma quantidade imensa de papel e jornais no lixo e nesse processo achei uma pasta relativamente antiga com todas as minhas reportagens publicadas nos dois jornais onde trabalhei. À medida em que ia passando o olho pelos títlulos das matérias, confirmei que um caderno de Cidades não é nada fácil. Olhando de fora, sem estar imerso na loucura do jornalismo diário, é possível ter uma noção melhor de como a sociedade é complexa e muitas vezes incompreensível. E que a cidade em si é um organismo descontrolado, autônomo. Observá-la é tarefa de uma cobertura segmentada, violenta, invasiva e necessária: o hardnews. Como estagiário, fiz de chacinas e sequestros a projetos sociais de fazer os olhos marejarem.
“Jovem estrangula mulher e se mata”; “Cabeleireiro é assassinado a facadas em Casa Amarela”; “Três baleados e quatro esfaqueados no Sertão”; “Apreensão de cocaína cresce 57%”; “Bimotor explode em Alagoas”; “Chuva destrói teto de casarão e inunda ruas”, foram só algumas das reportagens que mais me chamaram atenção.
Lembro da primeira vez que vi um corpo por causa da profissão, o de uma idosa carbonizada viva no bairro do Engenho do Meio. Antes de descer do carro do jornal, dei de cara com aquela tradicional aglomeração de curiosos, a imensa maioria crianças, tentando ver alguma coisa identificável da casa, incendiada naquela madrugada. Uma viatura da PM, alguns agentes da polícia científica e o camburão do Instituto de Medicina Legal. Um dos peritos, ao me ver, começou a relatar o fato e me colocou para dentro da casa, no lado de lá do cordão de isolamento, que separava as cinzas e a multidão. Enquanto ele me repassava as informações, íamos caminhando pelos poucos cômodos do imóvel até eu me deparar com a mulher, inerte, engolida pelas cinzas no chão. Não consegui identificar uma pessoa ali. Nauseante. Depois, descobri que uma falha no motor do ventilador causou um circuito que, em contato com as cortinas e os lençóis da idosa, causaram as chamas. Ela não conseguiu chamar os bombeiros pois tomava remédios controlados que lhe causavam uma sonolência impressionante.
Minha primeira matéria policial foi sobre uma senhora que foi queimada viva no Engenho do Meio. Dentro da casa dela, um outro repórter, de uma emissora de televisão local e com anos anos de profissão, sacou um celular e começou a fotografar o corpo. “Para depois mostrar pro pessoal da redação”, disse. Quando os peritos do IML retiravam o cadáver, as crianças que rondavam a casa incendiada pulavam umas nas outras para tentar ver o mínimo que fosse de gente dentro daquele saco branco.
(continua)



4 respostas Até agora ↓
Rodrigo Almeida // Abril 13, 2008 às 10:02 pm |
Sou meio radical. Acho que comigo ia acontecer o seguinte: ou eu não ia conseguir entrar na casa de jeito algum e se entrasse provavelmente não conseguir produzir a matéria… ou ia acontecer de eu entrar super intencionado, tirar várias fotos, filmar se possível e guardar como referência de uma senhora carbonizada pra alguma idéia de filme futura. Porque cenas fortes sempre são inspiradoras. Isso me soa bem trash, mas a serviço de uma possível criação artística, acho que o trash diminui um pouco. É uma lógica meio arbitrária, mas é assim mesmo que funcionaria comigo.
(tenho um amigo que estagiava na folha e pediu demissão no dia seguinte a uma ronda super punk. No dia da ronda ele ficou o dia inteiro sem conseguir comer e com ânsias de vômito).
Rodrigo Almeida // Abril 13, 2008 às 10:05 pm |
“futura idéia de filme” não “idéia de filme futura”.
Ficou meio mestre Yoda.
Rodrigo Almeida // Abril 15, 2008 às 10:38 am |
Se bem… fiquei com esse meu comentário na cabeça: com certeza não teria peito pra entrar na casa. Ponto final.
Felipe // Abril 15, 2008 às 1:22 pm |
A ronda da Folha é um troço muito, muito punk mesmo, ainda bem que nunca tive que passar por lá. Ficava bem longe, escrevendo sobre computadores e tecnologia, feliz da vida =P.
Esse lance que você falou de que cenas fortes costumam, às vezes, servir como material, apesar de ser um pensamento que pode ser considerado “inapropriado” por muita gente, é válido, na minha opinião. Um dos meus melhores textos – opinião própria! – foi sobre um triplo homicídio que presenciei em Jardim São Paulo. O mesmo raciocínio pode ser levado para vários filmes e textos que se vêem por aí. Não imagino que Rubem Fonseca teve uma vida fácil para escrever o que escrevia.