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Entradas do Maio 2008

Buñuel ficaria orgulhoso

Maio 26, 2008 · 3 Comentários

O pai do surrealismo no cinema sorriria, sarcástico, com o último evento do presidente Lula no Rio de Janeiro. Antes do pronunciamento oficial dos participantes da mesa – entre eles ex-ministros, o próprio presidente, um prêmio nobel em economia de ultradireita, um professor emérito de uma universidade norte-americana e um colunista do New York Times – o mestre-de-cerimônias ordenou que todos ficássemos de pé para a proclamação do hino nacional.

A pontinha de patriotismo forçado que aquela cena provocou na platéia foi de chamar a atenção, porque muitos levantaram-se sem muita vontade de suas poltronas brancas, acolchoadas, do auditório gélido do BNDES. Eis que, ao contrário do que todos esperávamos, uma flautista notoriamente desconhecida foi convocada ao palco para a execução do hino. Visivelmente nervosa – suas pernas tremiam – a moça sofregou para cuspir algum ar dentro daquela haste de metal.

Ela apertava os botõeszinhos com uma dificuldade impressionante e, com toda a certeza, suava feito o diabo dentro daquele blazer preto engomado. As notas do hino nacional eram sopradas para fora e, vale salientar, não chegavam muito animadas aos ouvidos nada atentos daquela platéia feita de embuste. Ninguém tinha interesse em estar ali e provavelmente ninguém tinha interesse em discutir o assunto, a não ser alguns poucos. A flautista brigava com o nervosismo e o pânico da persona famosa que estava logo ao seu lado, o presidente, e se debatia com o “deitado eternamente em berço esplêndido”.

No meio da execução, uma jornalista espirituosa solta que “alguém deve estar comendo a coitada da flautista”, comentário logo seguido por um “eu dava um caldo”, de um outro colega de profissão já castigado pela idade e certamente com muitos graus de miopia. Depois da apresentação surrealista, da mocinha vestida de blazer preto, com as pernas bambas e o sorriso amarelo, uma ilustre desconhecida que provavelmente alguém estava comendo, os burocratas da máquina pública voltaram-se ao palanque para anunciar os mais novos planos revolucionários de desenvolvimento nacional que, em segundos!, trariam o desenvolvimento que nunca apareceu.

Tal cenário, recheado de canapés murchos, sucos de uva em taças repetidas e conversas de canto de auditório, regadas a brigas entre repórteres pelo furo do dia seguinte, completado com a alegoria da flautista muda, dariam uma bela risada naquele que fez El Angél Exterminador. Com mais dose de provocação e consciência política, obviamente. Inclusive, “A Flautista Muda” acaba até sendo compatível com as obras do espanhol que, viciado em álcool, morreu de cirrose. Uma pena.

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El mundo frio

Maio 4, 2008 · Deixe um comentário

SEQÜÊNCIA 1.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Pés engelhados em superclose. É possível ver as ranhuras dos dois pés, muito brancos, que bóiam dentro de uma piscina azul. Corta. Câmera em médio plano de um homem boiando, de bruços, dentro da piscina. De shorts igualmente azuis como a piscina. Ele não está respirando. A câmera mostra uma situação de quase-morte. O personagem está boiando, sem demonstrar qualquer reação. Está de noite e apenas uma fraca lâmpada ilumina o ambiente. Numa cadeira à beira da piscina, um par de sandálias, uma toalha dobrada, um cartão e um tocador de mp3.

SEQÜÊNCIA 2.
EXT. AVENIDA – NOITE

Na avenida ao lado do edifício onde se encontra a piscina, não há nenhum carro ou pedestre. O vento balança alguns coqueiros da localidade e há poucas nuvens no céu.

SEQÜÊNCIA 3.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Close na lateral do rosto da personagem, imerso na água. A situação, estática, continua por mais alguns instantes, até que surgem algumas poucas borbulhas dentro d’água. Depois dessas primeiras, que surgem vagarosamente, outras começam a aparecer, com mais violência e velocidade. O personagem começa a se debater dentro da piscina, sem ainda levantar a cabeça de dentro da água. A quantidade de bolhas aumenta progressiva e assustadoramente. Ele começa a bater com os braços na água, em profunda agressividade, até que levanta a cabeça e respira desesperadamente com a boca, fazendo um barulho de quem estava à beira de um afogamento e encontrou oxigênio no último instante.

A câmera foca o rosto do homem, de aparência jovem, cabelos escuros jogados sobre o rosto, que puxa o ar com força, enchendo os pulmões, até começar a respirar com normalidade. Apoiando os dois punhos na borda da piscina, se ergue da água. Num enfoque minimalista, planos dos dois braços do personagem, das suas costas e dos shorts azul marinho.

O personagem se enxuga com a toalha e senta na cadeira ao lado da mesa da piscina. Abre uma carteira de cigarros e começa a fumar, olhando para a água. Passa as mãos nos cabelos, olha o relógio, enxuga o visor, olha novamente, conferindo a hora. Permanece sentado, tragando a fumaça, com o olhar vidrado na água, até que coloca os fones do aparelho de mp3 nos ouvidos e levanta da cadeira, pegando o cartão e calçando as sandálias.

SEQÜÊNCIA 4.
INT. SAGUÃO DO HOTEL – NOITE
(INSERT DE TRILHA)

Ouvindo música, o personagem caminha, sem camisa, com a toalha jogava sobre os ombros, pelo saguão do hotel. As sandálias fazem barulho característico de pés encharcados. Um hóspede passa por ele e o cumprimenta com a cabeça. Ele finge um sorriso constrangido em retribuição e chega ao elevador.

SEQÜÊNCIA 5.
INT. ELEVADOR/CORREDOR DO ANDAR – NOITE
(AINDA NA TRILHA, QUE SE DESFAZ NA PERGUNTA DA MULHER)

Entra. Aperta seu andar e olha novamente o relógio. Ao sair do elevador, se encaminha até a porta de sua suíte e a abre com o cartão. Uma MULHER, do quarto vizinho, aparece no corredor. Bonita e arrumada, olha para ele com ternura. Ela é mais velha do que ele.

MULHER
Oi. Está tudo bem?

PERSONAGEM
(evasivo)
Sim, claro.

MULHER
Está morando por aqui ou só passando uns dias?

PERSONAGEM
Alguns dias, acho.

MULHER
Ah, aqui é ótimo. Você vai gostar, já estava aproveitando a piscina, veja só. Se precisar de alguma coisa, estou aqui. Seja bem-vindo.

PERSONAGEM
Obrigado.

Com essa resposta, entra na suíte. A mulher olha para a porta que acabou de se fechar por uns instantes, como se estivesse entendendo a personalidade daquela pessoa. Depois, se encaminha para o elevador.

SEQÜÊNCIA 6.
INT. SUITE – NOITE

O personagem acende o interruptor e entra no banheiro.

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O dia que andei no vagão exclusivo para as mulheres

Maio 1, 2008 · 3 Comentários

Foto de Claudio Lara

Para quem não sabe, o metrô do Rio tem um vagão exclusivo para mulheres, que opera das 6h às 8h e das 18h às 20h. O objetivo da medida é evitar que as mulheres sofram abusos sexuais, eventuais cantadas cretinas ou coisa parecida nos horários de pico (sem trocadilho!). Os avisos da cor rosa com os horários restritos estão em absolutamente todas as estações, informando que há um vagão específico para os sexo feminino. Homem não entra, literalmente. Eu sabia desse detalhe, claro. Tinha andado algumas dezenas de vezes de metrô e entre ler as edições do tablóide Meia Hora – vendido nas plataformas e adornado com capas que variam de Grazi com dengue a Ronaldinho e os travestis – e os avisos espalhados pelo local, eu preferia me concentrar neles.

Eis que no dia relatado, por causa do esquizofrênico trânsito carioca, cheguei atrasado na estação de Botafogo. Aquele mar de gente entrando na estação ao mesmo tempo, engravatados, mauricinhos, mulheres bem arrumadas, idosos, todos se acotovelando por mais um pouquinho de espaço na escada rolante. Sempre que eu vejo essas cenas lembro das aulas de física, de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo”. Bom, eles até podem. Mas, er… deixa pra lá, voltemos ao metrô. Depois de uns bons vinte minutos na fila para comprar o bilhete, olhei para baixo e vi que o trem tinha acabado de chegar. Com algum cuidado para não despencar das escadas, corri para a plataforma e tentei, em vão, entrar nos primeiros vagões. Seiscentos homens de negócios jogavam suas pastas de executivo uns nos outros e se empurravam desesperadamente. No meio desse processo, o maquinista, sádico, acionou o aviso de que o metrô iria partir.

Na agonia, entrei, com dois homens, no primeiro vagão que estava menos vazio. Um usava um boné cinza virado para trás, camiseta regata e mascava chiclete. O outro empunhava uma pasta murcha e vestia uma camisa social marrom, gasta pelo tempo. A sensação de ter conseguido embarcar íntegro é comparável àquelas vezes em que voccê está na fila de espera do dentista e depois de três horas e duas edições de Caras é chamado. Inevitável não olhar para os demais pacientes e sorrir com cara de “ganhei”.

Com esse pensamento na cabeça, o metrô já em movimento, olhei, como qualquer mortal, em volta. Umas sessenta mulheres: loiras, ruivas, morenas, gordinhas, magras, queimadas de sol, de salto alto, sandália baixa, bolsa de bolinhas, mochila, óculos de borda grossa, óculos escuros, blazer, camisa social, saia vermelha… Um mar de pernas, uma profusão de perfumes doces e um ambiente leve. Achei estranho. Metrô do Rio, às 7h30, só eu e dois homens nesse vagão? Uma das mulheres começou a me encarar com cara feia e o cara do chiclete a se coçar, inquieto. Alguns segundos depois, outra mulher me encarou, desta vez sorrindo. O operador anunciou que a próxima estação seria a do Flamengo. As portas abriram, ninguém saiu. Entram mais dezesseis mulheres. Nenhum homem. Acordado do estado de torpor, percebi que estava no exclusivo e tão comentado vagão das mulheres. Já tinha ouvido falar dele, sempre figura folclórica em mesas de bar e conversas de corredor.

Quando o metrô chegou na terceira estação, Largo do Machado, os meus dois companheiros de aventura saíram do carro, me deixando sozinho com aquele mar feminino. Me senti o último homem da terra. O fato é que, a todo momento, achei que um deles fosse comentar comigo, com ar canalha, algo como “somos caras de sorte, não?”. Fiquei na dúvida se eles tinham realmente saltado na estação ou fugido da situação. Impassível, esperei que o trem parasse mais cinco vezes até eu descer. Antes de sair do vagão, eram tantas mulheres em volta e um aperto tão grande, que eu me senti abusado em pleno vagão exclusivo para as mulheres. Já na saída da estação, vi as centenas de engravatados saindo dos demais carros do metrô, masculinos, com suas valises e sapatos bem engraxados. Preferi a minha viagem.

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