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O dia que andei no vagão exclusivo para as mulheres

Maio 1, 2008 · 3 Comentários

Foto de Claudio Lara

Para quem não sabe, o metrô do Rio tem um vagão exclusivo para mulheres, que opera das 6h às 8h e das 18h às 20h. O objetivo da medida é evitar que as mulheres sofram abusos sexuais, eventuais cantadas cretinas ou coisa parecida nos horários de pico (sem trocadilho!). Os avisos da cor rosa com os horários restritos estão em absolutamente todas as estações, informando que há um vagão específico para os sexo feminino. Homem não entra, literalmente. Eu sabia desse detalhe, claro. Tinha andado algumas dezenas de vezes de metrô e entre ler as edições do tablóide Meia Hora – vendido nas plataformas e adornado com capas que variam de Grazi com dengue a Ronaldinho e os travestis – e os avisos espalhados pelo local, eu preferia me concentrar neles.

Eis que no dia relatado, por causa do esquizofrênico trânsito carioca, cheguei atrasado na estação de Botafogo. Aquele mar de gente entrando na estação ao mesmo tempo, engravatados, mauricinhos, mulheres bem arrumadas, idosos, todos se acotovelando por mais um pouquinho de espaço na escada rolante. Sempre que eu vejo essas cenas lembro das aulas de física, de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo”. Bom, eles até podem. Mas, er… deixa pra lá, voltemos ao metrô. Depois de uns bons vinte minutos na fila para comprar o bilhete, olhei para baixo e vi que o trem tinha acabado de chegar. Com algum cuidado para não despencar das escadas, corri para a plataforma e tentei, em vão, entrar nos primeiros vagões. Seiscentos homens de negócios jogavam suas pastas de executivo uns nos outros e se empurravam desesperadamente. No meio desse processo, o maquinista, sádico, acionou o aviso de que o metrô iria partir.

Na agonia, entrei, com dois homens, no primeiro vagão que estava menos vazio. Um usava um boné cinza virado para trás, camiseta regata e mascava chiclete. O outro empunhava uma pasta murcha e vestia uma camisa social marrom, gasta pelo tempo. A sensação de ter conseguido embarcar íntegro é comparável àquelas vezes em que voccê está na fila de espera do dentista e depois de três horas e duas edições de Caras é chamado. Inevitável não olhar para os demais pacientes e sorrir com cara de “ganhei”.

Com esse pensamento na cabeça, o metrô já em movimento, olhei, como qualquer mortal, em volta. Umas sessenta mulheres: loiras, ruivas, morenas, gordinhas, magras, queimadas de sol, de salto alto, sandália baixa, bolsa de bolinhas, mochila, óculos de borda grossa, óculos escuros, blazer, camisa social, saia vermelha… Um mar de pernas, uma profusão de perfumes doces e um ambiente leve. Achei estranho. Metrô do Rio, às 7h30, só eu e dois homens nesse vagão? Uma das mulheres começou a me encarar com cara feia e o cara do chiclete a se coçar, inquieto. Alguns segundos depois, outra mulher me encarou, desta vez sorrindo. O operador anunciou que a próxima estação seria a do Flamengo. As portas abriram, ninguém saiu. Entram mais dezesseis mulheres. Nenhum homem. Acordado do estado de torpor, percebi que estava no exclusivo e tão comentado vagão das mulheres. Já tinha ouvido falar dele, sempre figura folclórica em mesas de bar e conversas de corredor.

Quando o metrô chegou na terceira estação, Largo do Machado, os meus dois companheiros de aventura saíram do carro, me deixando sozinho com aquele mar feminino. Me senti o último homem da terra. O fato é que, a todo momento, achei que um deles fosse comentar comigo, com ar canalha, algo como “somos caras de sorte, não?”. Fiquei na dúvida se eles tinham realmente saltado na estação ou fugido da situação. Impassível, esperei que o trem parasse mais cinco vezes até eu descer. Antes de sair do vagão, eram tantas mulheres em volta e um aperto tão grande, que eu me senti abusado em pleno vagão exclusivo para as mulheres. Já na saída da estação, vi as centenas de engravatados saindo dos demais carros do metrô, masculinos, com suas valises e sapatos bem engraxados. Preferi a minha viagem.

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