O pai do surrealismo no cinema sorriria, sarcástico, com o último evento do presidente Lula no Rio de Janeiro. Antes do pronunciamento oficial dos participantes da mesa – entre eles ex-ministros, o próprio presidente, um prêmio nobel em economia de ultradireita, um professor emérito de uma universidade norte-americana e um colunista do New York Times – o mestre-de-cerimônias ordenou que todos ficássemos de pé para a proclamação do hino nacional.
A pontinha de patriotismo forçado que aquela cena provocou na platéia foi de chamar a atenção, porque muitos levantaram-se sem muita vontade de suas poltronas brancas, acolchoadas, do auditório gélido do BNDES. Eis que, ao contrário do que todos esperávamos, uma flautista notoriamente desconhecida foi convocada ao palco para a execução do hino. Visivelmente nervosa – suas pernas tremiam – a moça sofregou para cuspir algum ar dentro daquela haste de metal.
Ela apertava os botõeszinhos com uma dificuldade impressionante e, com toda a certeza, suava feito o diabo dentro daquele blazer preto engomado. As notas do hino nacional eram sopradas para fora e, vale salientar, não chegavam muito animadas aos ouvidos nada atentos daquela platéia feita de embuste. Ninguém tinha interesse em estar ali e provavelmente ninguém tinha interesse em discutir o assunto, a não ser alguns poucos. A flautista brigava com o nervosismo e o pânico da persona famosa que estava logo ao seu lado, o presidente, e se debatia com o “deitado eternamente em berço esplêndido”.
No meio da execução, uma jornalista espirituosa solta que “alguém deve estar comendo a coitada da flautista”, comentário logo seguido por um “eu dava um caldo”, de um outro colega de profissão já castigado pela idade e certamente com muitos graus de miopia. Depois da apresentação surrealista, da mocinha vestida de blazer preto, com as pernas bambas e o sorriso amarelo, uma ilustre desconhecida que provavelmente alguém estava comendo, os burocratas da máquina pública voltaram-se ao palanque para anunciar os mais novos planos revolucionários de desenvolvimento nacional que, em segundos!, trariam o desenvolvimento que nunca apareceu.
Tal cenário, recheado de canapés murchos, sucos de uva em taças repetidas e conversas de canto de auditório, regadas a brigas entre repórteres pelo furo do dia seguinte, completado com a alegoria da flautista muda, dariam uma bela risada naquele que fez El Angél Exterminador. Com mais dose de provocação e consciência política, obviamente. Inclusive, “A Flautista Muda” acaba até sendo compatível com as obras do espanhol que, viciado em álcool, morreu de cirrose. Uma pena.



3 respostas Até agora ↓
Fernanda // Maio 28, 2008 às 11:43 pm |
Ei… Publica esse texto no IG!! Seria genial!!! heheh… beijooo.
Manu // Junho 9, 2008 às 3:32 pm |
tá afiado, ein felipe
pessoas que escrevem: legal que elas existem né
parabenzes pelo blogue e pelos cumpleaños!
Felipe // Junho 21, 2008 às 2:56 pm |
se eu publicar no iG acho que nunca vou mais para coletivas do Lula, haha. ;***