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Entradas do Junho 2008

A história de Francisco Chagas

Junho 21, 2008 · 1 Comentário

Francisco Chagas, ou simplesmente Chico, como era chamado pelos seus alunos, repetia as mesmas coisas todos os dias. Acordava com imensa dificuldade, abria os olhos com preguiça e se espreguiçava com gosto. Dormia numa cama de casal, mas acordava sozinho. Sua mulher tinha morrido há três anos, vítima de um câncer no pâncreas. Disseram a ele que o câncer de pâncreas é o pior de todos. No início foi difícil, se encolhia num canto e chorava por horas a fio. Colocava a cabeça entre as mãos e pensava na esposa, no quão importante ela era e em todas as lembranças que construíram juntos.

Na ocasião da morte, pediu licença da universidade, onde dava aulas na graduação de Sociologia, para tentar colocar a cabeça no lugar. Chico ainda não tinha se acostumado com a idéia de estar sozinho, de acordar sozinho, de dormir sozinho, de não ter os sorrisos compartilhados, as mãos dadas, o sexo e até as brigas. Tinha 43 anos e vivia uma vida módica, repetitiva, comum. Francisco Chagas não era ninguém. Morava sozinho no mesmo apartamento de dois quartos no Leblon que dividira com a mulher. Não tinha amigos, seu filho morava na Alemanha, onde fazia doutorado, e o restante de seus parentes não lhe dava bola.

A relação com o rebento não era e nunca foi muito boa. Os dois não se batiam e, se conseguia entender o mecanismo de funcionamento das sociedades ao longo do tempo, Chico não se comunicava com seu filho. Os dois conviveram por 23 anos no mesmo espaço e não compartilharam nenhuma história importante, nenhum momento especial. Logo depois da morte da mãe, o rapaz foi para o exterior. A despedida do pai foi complicada, Francisco foi até o aeroporto internacional com os olhos marejados. Mesmo que já se sentisse assim com o filho do lado, sabia que agora ia ficar sozinho de verdade. Flávio não soube corresponder direito ao abraço que o pai lhe deu.

Os dois nunca tinham trocado carinhos, sorrisos, nada. Era uma mera convenção formal. No portão de embarque, Flávio não olhou para trás. Passou pela alfândega levando uma mala de mão, teve o passaporte vistoriado e entrou. Francisco ficou arrasado, foi correndo para o banheiro do aeroporto e escolheu a primeira cabine vazia para chorar. Sabia que agora não tinha mais jeito, que a relação que poderia tentar construir com o filho não voltaria mais e que havia milhares de quilômetros de distância separando os dois. Seus esforços e as tentativas de Flávio de reviver algo que nunca existiu sempre foram insuficientes.

Os dois nunca tiveram uma boa noção do que era realmente ser pai e filho, Chico tornou-se pai aos 19 anos, não estava preparado, e Flávio dividia a atenção do pai com dezenas de alunos da graduação. Concorrência que considerava desleal, pois nunca foi afeito à Sociologia. O elo de ligação entre os dois era a mãe, Ligia. Mediadora de discussões e de silêncios, ela tentava criar uma convivência, ainda que forçada, entre as partes. Também fracassou. Fingia que conseguia, a verdade era essa. O fato é que, depois de sua morte, Francisco passou a chorar com freqüência.

Era um homem forte, sadio, admirado pelas alunas. Chamava a atenção, tinha os olhos bem pretos e arredondados, barba mal feita e um ar inegável de intelectual, mas escondia lá dentro uma personalidade muito sensível. No dia da despedida do filho, passou cerca de 20 minutos dentro da cabine. Chorava copiosamente, encarava a ida de Flávio como uma segunda morte na família e essa mais cruel ainda, pois era remediável. Esperou as lágrimas cessarem e limpou os olhos o máximo que pudesse, não podia andar no saguão do aeroporto naquele estado. Depois de lavá-los com bastante água e respirar fundo, foi até o carro. Olhou na agenda do telefone celular, mas não viu nenhum amigo que pudesse lhe dar algum conforto. Nenhum colega de profissão que o acompanhasse e amparasse.

Na volta para casa, um turbilhão de pensamentos tomou conta de si. Sua cabeça pesava mais do que nas piores crises de enxaqueca e suas mãos não conseguiam pressionar o volante com força. Chegou a pensar em soltar as mãos e ver o que acontecia, se o carro estava desalinhado ou não, se poderia pender para a esquerda, bater contra o meio-fio e capotar cinematograficamente na pista. Sempre teve curiosidade em saber como é estar dentro de um carro que capota. Será que dói? Nunca soube. Por mais frágil que suas mãos estivessem, dirigiu até em casa.

A entrada no apartamento foi das mais tristes. O quarto que dividia com a mulher ainda conservava muitas lembranças dela: fotografias, quadros, livros, sorrisos, cheiros, cores, sensações. Agora também havia o do filho, intacto, simples. Uma cama de solteiro, alguns livros, um tênis apoiado na parede. Chico costumava andar na praia do Leblon. Tentava, desesperadamente, pensar em outras coisas, em algo que lhe desse alguma motivação. Não funcionava muito, ele se boicotava e andava muito pouco e, quando andava, acaba desistindo no meio do caminho e sentava na areia, olhando o mar.

No dia em que acordou, fazia muito frio. Depois de lutar muito com a própria resistência em levantar e de pensar na esposa que não estava mais consigo, o professor abriu as pesadas cortinas pretas e, ainda de pijama, pegou o jornal na porta. As noticias eram iguais há 20 anos, exatamente as mesmas coisas, só mudavam os protagonistas. Era um remake da mesma peça de teatro. Apesar de ter a assinatura, Francisco não lia o jornal. Comprava porque se algum aluno perguntasse algo, ele poderia checar, mas, por conta própria, lia a capa e o caderno de esportes, no máximo.

Achava aquilo tudo uma hipocrisia sem tamanho e se irritava quando alguém começava a comentar algum caso que estivesse em destaque na mídia. Tomava café sem a menor emoção, mastigava o pão duro e velho com desagrado e remexia o mamão com a colher de chá. Tirava as sementes pretas e as esmagava contra o prato azul. Comia pouco no café da manhã, não tinha mais a mulher para fazer omeletes, panquecas e as tortas que adorava. Se virava como podia. Tinha uma vida franciscana depois da morte da esposa. Guardava algum dinheiro no banco, mas evitava usá-lo. Talvez deixasse para o filho, mas ainda não ponderou sobre o assunto.

Enquanto comia, Chico folheava o jornal, lia as manchetes de assassinato, crise, inflação, desemprego e olhava as figuras do caderno de esportes, onde lia as matérias do Vasco da Gama. Colocava uma quantidade descomunal de açúcar no café. Para ficar acordado nas aulas, dizia. Depois de comer, Francisco sempre levava os pratos para a pia da cozinha, mas não lavava nenhum. Deixava-os sujos por dias até que a situação ficava insuportável e ele então tomava alguma atitude.

Quando ia para a universidade, tentava ouvir algum disco antigo. Apostava em clássicos da bossa nova, mas tudo o que colocava para tocar lhe lembrava de Ligia. Menescal, Jobim, Lyra, ela era viciada em todos eles. Colecionava vinis originais dos artistas e tinha uma compilação de cds que adorava. A bem verdade, Chico ouvia aquilo para ficar mais perto da mulher. As vezes se distraía pensando nela, fazia uma manobra mais arriscada no trânsito ou esquecia de travar as portas. Se a esposa era apaixonada por musica, ele era, ou tinha sido, pela Sociologia. Estudara na Europa, onde fez doutorado e consumia livros por compulsão. Tinha mais de 400 em casa e jurava que tinha lido a maioria. Nas aulas, a paixão não vinha muito a tona.

Falando a verdade, ele já não via mais o porquê de fazer aquilo. Os alunos eram burros, insuportáveis, desinteressados. Ninguém ali queria aprender, só queriam notas no fim do período. E Francisco fazia isso. Dava suas aulas no modo automático, não olhava pra o rosto de nenhum dos alunos, os entulhava de conteúdo desorganizado, e depois aprovava todos. Algumas garotas tentava ludibriá-lo com decotes e outros artifícios para garantir um eventual aumento na nota, mas Francisco abominava aquele tipo de prostituição desesperada da burrice.

Passava nove horas na universidade, onde, às vezes, tomava café com algum outro professor ou aluno mais interessado. Eram ocasiões raríssimas. Preferia sempre expresso, com muito açúcar. Não ia para outros lugares depois do expediente. Chico era um professor atuante, lutava pelas melhorias das condições de ensino e de infra-estrutura acadêmicas, mas a paralisia da administração da faculdade o desanimava cada vez mais. Era simplesmente inútil continuar tentando. Costumava tomar um chope com alguns colegas até a data da morte de Ligia. Depois daquele dia, ia direto para casa.

Passava entre uma hora e meia e duas horas no trânsito até que chegava no seu apartamento de dois quartos no Leblon. Assistia um pouco de televisão, olhava as pessoas caminhando na rua, comia alguma coisa e então colocava o pijama que a esposa tinha lhe dado de presente anos atrás. Com ele, deitava na cama de casal e abria os braços esperando um abraço que não viria. Vivia incompleto. E seria assim por todos os dias

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Herbie Hancock conquista platéia do Rio de Janeiro

Junho 20, 2008 · Deixe um comentário

RIO DE JANEIRO – Era fácil observar que a grande maioria dos que foram ao Vivo Rio na noite desta terça-feira e se dispuseram a pagar ingressos com preços variando entre R$ 200 e R$ 400 não fazia idéia de quem era Herbie Hancock. Praticamente lotada, a casa de shows do Aterro do Flamengo, na zona sul, se encheu de curiosos para saber quem foi o vencedor do Grammy de melhor disco deste ano. Muitos dos presentes esperavam um pianista de jazz tradicional, mas o termo não tem sentido quando se fala em Hancock, que ganhou o prêmio no mês de fevereiro pelo álbum “River: The Joni Letters”, desbancando a concorrente Amy Winehouse.

O prêmio foi recebido com espanto por Hancock, pois desde 1964, quando o saxofonista Stan Getz levou o Grammy de melhor álbum por seu trabalho ao lado de João Gilberto no clássico “Getz/Gilberto”, nenhum outro músico de jazz havia conseguido vencer nessa categoria. Na ocasião, Herbie Hancock agracedeu a coragem da academia e disse que a vitória serviria como uma homenagem para os mestres Miles Davis e John Coltrane.

Vestindo um paletó preto que cobria uma camiseta estampada com o cavalinho da Ferrari, o pianista e compositor subiu ao palco sem dizer uma única palavra. Depois de um tímido sorriso, sentou ao piano e iniciou a apresentação homenageando o saxofonista e amigo Wayne Shorter com uma releitura da clássica “Footprints”, composta no tempo em que os dois faziam parte de uma das mais importantes reuniões musicais de todos os tempos, o Miles Davis Quintet, que contava ainda com o baixista Ron Carter e Tony Williams na bateria.

Aos olhos atônitos da platéia, o quarteto de Hancock – composto por baixo, bateria, piano e guitarra – recriava “Footprints” com uma levada baseada nos sintetizadores de Herbie, uma das marcas registradas do pianista, que demonstrava aos curiosos que de “tradicional” não tinha nada.

Sorrindo muito, o músico brincava com os outros integrantes do quarteto, que emendou “Actual Proof”, do álbum Thrust (1974), na seqüência. “It’s a crazy song!” (uma música louca!), disse o pianista, após sua execução. Com o microfone na mão, brincou com a platéia, comentou que tocava com uma banda maluca e lembrou que veio ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1968, para passar sua lua-de-mel. “Estou muito feliz de estar novamente no Brasil em 40 anos”, disse Hancock, que aparentemente se esqueceu da apresentação que fez no Tim Festival, em 2006.

O teclado-guitarra

Após brincar com o excelente guitarrista Lionel Loueke, nascido em Benin, na África, Hancock anunciaria uma nova e criativa versão, com 17 complicados compassos, de “Watermelon Man”, de seu álbum Head Hunters (1972). No Rio, como nos maiores festivais de jazz do mundo, Herbie largou o piano e foi à frente do palco com um teclado branco em forma de guitarra e “solou”, desafiando os outros músicos para ver quem fazia os acordes mais imprevisíveis.

Atônita no começo da noite, a platéia já batia palmas empolgada com a impressionante presença de palco do norte-americano e de seu grupo, que variava do groove ao free-jazz em segundos. Enquanto tocava o instrumento, chamado pela imprensa estrangeira de key-tar, ou teclado-guitarra em bom português (algo com a forma de uma gatorra, o bizarro aparato de Tony da Gatorra), não era incomum ver Hancock soltando sonoras gargalhadas. “Esta música é quase impossível!”, dizia.

As vocalizações do funk norte-americano dos anos 70 e do hard-bop também tiveram espaço no eclético set do quarteto, que fez uma revisão de “Stitched Up”, composição do cantor pop John Mayer, que fez turnê com Hancock em 2005. O vocal do baixista Nathan East acabaria por animar os presentes no Vivo Rio. A escolha da música é mais uma prova de que Hancock passeia pelos mais variados estilos, não se prendendo a amarras comuns a muitos músicos carimbados.

River: The Joni Letters

Eis que o que muita gente esperava ou achava esperar, viria logo em seguida com duas músicas do novo trabalho. No álbum ganhador do Grammy (ele já levou outros 12, em categorias diferentes), Hancock homenageia a cantora e compositora canadense Joni Mitchell, que tocou ao lado de nomes de peso como Rolling Stones, Jimi Hendrix e o próprio Herbie.

Como não trouxe Norah Jones ou Tina Turner, com quem gravou o disco vencedor do Grammy, que também conta com a voz de Leonard Cohen, Herbie convocou ao palco a norte-americana Sonia Kitchell, que cantou “River” e “All I Want”. Durante a participação da cantora, a platéia, com razão, acabou ficando um pouco sonolenta.

Mas o incômodo foi quebrado logo com um meddley solo do guitarrista de Benin, considerado uma das grandes revelações dos últimos anos. Loueke cantava em seu idioma natal e abusava dos tappings, técnica de tocar a guitarra com uma ou duas mãos, criando notas de escala em alta velocidade. “Ele é uma maravilhosa sopa internacional de música”, definiu Hancock, que faria um belo solo de piano na seqüência.

O grande momento da noite

Foi no final da noite que a festa alcançou seu ponto máximo. Sem querer entregar o ouro de bandeja, Hancock escolheu, para depois de quase uma hora e meia de show, duas pérolas: “Cantaloupe Island”, do álbum Empyrean Isles (1964) e “Chameleon”, do Head Hunters (1973).

Na primeira música, de um dos LPs de jazz mais influentes dos anos 60 (período em que gravaria seu primeiro trabalho para o cinema, a trilha sonora de Blowup, de Michelangelo Antonioni) e recriada inúmeras vezes, uma delas pelo grupo US3, que mescla jazz e rap, Hancock mostraria, com intensos sorrisos, a inventividade do jazz. O pianista estava tão feliz que mais parecia uma criança experimentando um brinquedo novo.

Já “Chameleon”, com sua inigualável linha de baixo funkeada e a bateria quebrada de Vinnie Colaiuta, levantou parte da platéia, que transformou o Vivo Rio em uma pista de dança. Tendo o nome retirado de uma música do camaleônico Frank Zappa, “Chameleon” fechou a noite da melhor forma possível e, com toda a certeza, quem foi ver o “vencedor do Grammy”, saiu com muito mais do que isso.

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Essa coisa de viver no Rio

Junho 19, 2008 · Deixe um comentário

É engraçado, mas me acostumei – ou algo perto disso – com os soldados da Polícia Militar em patrulhamento ostensivo pelas ruas da cidade. Fuzil é bobagem. Viatura com a lataria marcada de balas não é novidade. Dia desses liguei para um soldado da PM para apurar uma operação e ouvi o cidadão gritando em meio a uma chuva de balas. O barulho era nítido. Outra vez estava vindo para o trabalho e, nas proximidades da Rocinha, um helicóptero Águia da Polícia Civil passou a dez centímetros do capô do meu carro. Pendurados para fora, dois policiais do Bope com metralhadoras e uma rede usada para retirar a maconha apreendida na favela.

Dias depois, um soldado tentou me extorquir porque eu estava falando no celular enquanto dirigia. Pedi para ele me multar, mas o cara queria fazer “um acordo”. Ofereci um nota furada e molhada de R$ 5. Ele olhou com nojo e me liberou. Nessas horas dá vontade de ser multado. Outra vez, na Lapa, cerca de 15 policiais cercavam dois bandidos e riam enquanto comiam um cachorro quente. Um engravatado passava do lado e elogiava a camisa do Flamengo do camelô, os dois suspeitos no chão gritando.

Se pararmos para ver a que ponto a situação chegou – e o jornalismo diário colabora na criação dessa perspectiva – vemos que o quadro é, e vamos encarar o clichê, de guerra. Jornalistas torturados, balas perdidas, latrocínios e agora soldados do Exército utilizando o monopólio da violência instrumental contra três jovens do Morro da Providência, na Zona Portuária.

Ontem, passando pela Avenida Niemeyer, vi um cidadão completamente encapuzado, uniforme da PM, metralhadora na mão. Só dava para ver os olhos, o resto do corpo estava camuflado. Quem passava por ali com menos atenção dificilmente veria o sentinela. Uns metros depois, duas viaturas embarreiradas nas proximidades da Rocinha.

Acho que eu tenho mais medo da polícia que dos bandidos.

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Mulher abandonada

Junho 13, 2008 · Deixe um comentário

Vestindo uma camisa branca muito larga, um pouco suja, mas com certa dignidade, primeiro ela se aproximou da senhora logo à frente. Estendeu as mãos e disse alguma coisa no pé do ouvido, esperando ser ouvida. Não foi. Depois do gesto, olhou em volta, meio envergonhada, as linhas de ônibus que passavam: 415, S20, 474, 2113… Arrastava as sandálias gastas pelo chão e coçava o rosto com dificuldade, esfregava com força as sobrancelhas pretas bastante finas e apertava os dedos contra a cintura como se precisasse de algum conforto.

O rosto dela, muito magro, não inspirava muita comoção, mas certamente causava algum desconforto. Ela sorria com angústia. A senhora com quem havia falado entrava, então, no ônibus de luxo de um condomínio num bairro muito distante dali. Barramares o nome. Como se estivesse tomando coragem, veio falar-me. Chegou de mansinho, de um jeito tão estranho quanto suplicante. Olhava com desespero e novamente estendeu a mão.

- Desculpa rapaz… preciso da sua ajuda. Meu marido me abandonou.

Uns outros, logo atrás, riram com a frase. Se abandonou, por que ela estava ali? O que realmente aconteceu? Quem garantiria que ele tinha abandonado-a e em quais circunstâncias? As tantas perguntas que os demais faziam a irritaram, que logo virou as costas e saiu correndo, profundamente incomodada. Não se sabe exatamente o que aconteceu com aquela mulher das sobrancelhas finas e do rosto pintado de angústia. O mais curioso: era Dia dos Namorados.

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