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Mulher abandonada

Junho 13, 2008 · Deixe um comentário

Vestindo uma camisa branca muito larga, um pouco suja, mas com certa dignidade, primeiro ela se aproximou da senhora logo à frente. Estendeu as mãos e disse alguma coisa no pé do ouvido, esperando ser ouvida. Não foi. Depois do gesto, olhou em volta, meio envergonhada, as linhas de ônibus que passavam: 415, S20, 474, 2113… Arrastava as sandálias gastas pelo chão e coçava o rosto com dificuldade, esfregava com força as sobrancelhas pretas bastante finas e apertava os dedos contra a cintura como se precisasse de algum conforto.

O rosto dela, muito magro, não inspirava muita comoção, mas certamente causava algum desconforto. Ela sorria com angústia. A senhora com quem havia falado entrava, então, no ônibus de luxo de um condomínio num bairro muito distante dali. Barramares o nome. Como se estivesse tomando coragem, veio falar-me. Chegou de mansinho, de um jeito tão estranho quanto suplicante. Olhava com desespero e novamente estendeu a mão.

- Desculpa rapaz… preciso da sua ajuda. Meu marido me abandonou.

Uns outros, logo atrás, riram com a frase. Se abandonou, por que ela estava ali? O que realmente aconteceu? Quem garantiria que ele tinha abandonado-a e em quais circunstâncias? As tantas perguntas que os demais faziam a irritaram, que logo virou as costas e saiu correndo, profundamente incomodada. Não se sabe exatamente o que aconteceu com aquela mulher das sobrancelhas finas e do rosto pintado de angústia. O mais curioso: era Dia dos Namorados.

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Buñuel ficaria orgulhoso

Maio 26, 2008 · 3 Comentários

O pai do surrealismo no cinema sorriria, sarcástico, com o último evento do presidente Lula no Rio de Janeiro. Antes do pronunciamento oficial dos participantes da mesa – entre eles ex-ministros, o próprio presidente, um prêmio nobel em economia de ultradireita, um professor emérito de uma universidade norte-americana e um colunista do New York Times – o mestre-de-cerimônias ordenou que todos ficássemos de pé para a proclamação do hino nacional.

A pontinha de patriotismo forçado que aquela cena provocou na platéia foi de chamar a atenção, porque muitos levantaram-se sem muita vontade de suas poltronas brancas, acolchoadas, do auditório gélido do BNDES. Eis que, ao contrário do que todos esperávamos, uma flautista notoriamente desconhecida foi convocada ao palco para a execução do hino. Visivelmente nervosa – suas pernas tremiam – a moça sofregou para cuspir algum ar dentro daquela haste de metal.

Ela apertava os botõeszinhos com uma dificuldade impressionante e, com toda a certeza, suava feito o diabo dentro daquele blazer preto engomado. As notas do hino nacional eram sopradas para fora e, vale salientar, não chegavam muito animadas aos ouvidos nada atentos daquela platéia feita de embuste. Ninguém tinha interesse em estar ali e provavelmente ninguém tinha interesse em discutir o assunto, a não ser alguns poucos. A flautista brigava com o nervosismo e o pânico da persona famosa que estava logo ao seu lado, o presidente, e se debatia com o “deitado eternamente em berço esplêndido”.

No meio da execução, uma jornalista espirituosa solta que “alguém deve estar comendo a coitada da flautista”, comentário logo seguido por um “eu dava um caldo”, de um outro colega de profissão já castigado pela idade e certamente com muitos graus de miopia. Depois da apresentação surrealista, da mocinha vestida de blazer preto, com as pernas bambas e o sorriso amarelo, uma ilustre desconhecida que provavelmente alguém estava comendo, os burocratas da máquina pública voltaram-se ao palanque para anunciar os mais novos planos revolucionários de desenvolvimento nacional que, em segundos!, trariam o desenvolvimento que nunca apareceu.

Tal cenário, recheado de canapés murchos, sucos de uva em taças repetidas e conversas de canto de auditório, regadas a brigas entre repórteres pelo furo do dia seguinte, completado com a alegoria da flautista muda, dariam uma bela risada naquele que fez El Angél Exterminador. Com mais dose de provocação e consciência política, obviamente. Inclusive, “A Flautista Muda” acaba até sendo compatível com as obras do espanhol que, viciado em álcool, morreu de cirrose. Uma pena.

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El mundo frio

Maio 4, 2008 · Deixe um comentário

SEQÜÊNCIA 1.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Pés engelhados em superclose. É possível ver as ranhuras dos dois pés, muito brancos, que bóiam dentro de uma piscina azul. Corta. Câmera em médio plano de um homem boiando, de bruços, dentro da piscina. De shorts igualmente azuis como a piscina. Ele não está respirando. A câmera mostra uma situação de quase-morte. O personagem está boiando, sem demonstrar qualquer reação. Está de noite e apenas uma fraca lâmpada ilumina o ambiente. Numa cadeira à beira da piscina, um par de sandálias, uma toalha dobrada, um cartão e um tocador de mp3.

SEQÜÊNCIA 2.
EXT. AVENIDA – NOITE

Na avenida ao lado do edifício onde se encontra a piscina, não há nenhum carro ou pedestre. O vento balança alguns coqueiros da localidade e há poucas nuvens no céu.

SEQÜÊNCIA 3.
EXT. PISCINA DE HOTEL – NOITE

Close na lateral do rosto da personagem, imerso na água. A situação, estática, continua por mais alguns instantes, até que surgem algumas poucas borbulhas dentro d’água. Depois dessas primeiras, que surgem vagarosamente, outras começam a aparecer, com mais violência e velocidade. O personagem começa a se debater dentro da piscina, sem ainda levantar a cabeça de dentro da água. A quantidade de bolhas aumenta progressiva e assustadoramente. Ele começa a bater com os braços na água, em profunda agressividade, até que levanta a cabeça e respira desesperadamente com a boca, fazendo um barulho de quem estava à beira de um afogamento e encontrou oxigênio no último instante.

A câmera foca o rosto do homem, de aparência jovem, cabelos escuros jogados sobre o rosto, que puxa o ar com força, enchendo os pulmões, até começar a respirar com normalidade. Apoiando os dois punhos na borda da piscina, se ergue da água. Num enfoque minimalista, planos dos dois braços do personagem, das suas costas e dos shorts azul marinho.

O personagem se enxuga com a toalha e senta na cadeira ao lado da mesa da piscina. Abre uma carteira de cigarros e começa a fumar, olhando para a água. Passa as mãos nos cabelos, olha o relógio, enxuga o visor, olha novamente, conferindo a hora. Permanece sentado, tragando a fumaça, com o olhar vidrado na água, até que coloca os fones do aparelho de mp3 nos ouvidos e levanta da cadeira, pegando o cartão e calçando as sandálias.

SEQÜÊNCIA 4.
INT. SAGUÃO DO HOTEL – NOITE
(INSERT DE TRILHA)

Ouvindo música, o personagem caminha, sem camisa, com a toalha jogava sobre os ombros, pelo saguão do hotel. As sandálias fazem barulho característico de pés encharcados. Um hóspede passa por ele e o cumprimenta com a cabeça. Ele finge um sorriso constrangido em retribuição e chega ao elevador.

SEQÜÊNCIA 5.
INT. ELEVADOR/CORREDOR DO ANDAR – NOITE
(AINDA NA TRILHA, QUE SE DESFAZ NA PERGUNTA DA MULHER)

Entra. Aperta seu andar e olha novamente o relógio. Ao sair do elevador, se encaminha até a porta de sua suíte e a abre com o cartão. Uma MULHER, do quarto vizinho, aparece no corredor. Bonita e arrumada, olha para ele com ternura. Ela é mais velha do que ele.

MULHER
Oi. Está tudo bem?

PERSONAGEM
(evasivo)
Sim, claro.

MULHER
Está morando por aqui ou só passando uns dias?

PERSONAGEM
Alguns dias, acho.

MULHER
Ah, aqui é ótimo. Você vai gostar, já estava aproveitando a piscina, veja só. Se precisar de alguma coisa, estou aqui. Seja bem-vindo.

PERSONAGEM
Obrigado.

Com essa resposta, entra na suíte. A mulher olha para a porta que acabou de se fechar por uns instantes, como se estivesse entendendo a personalidade daquela pessoa. Depois, se encaminha para o elevador.

SEQÜÊNCIA 6.
INT. SUITE – NOITE

O personagem acende o interruptor e entra no banheiro.

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O dia que andei no vagão exclusivo para as mulheres

Maio 1, 2008 · 3 Comentários

Foto de Claudio Lara

Para quem não sabe, o metrô do Rio tem um vagão exclusivo para mulheres, que opera das 6h às 8h e das 18h às 20h. O objetivo da medida é evitar que as mulheres sofram abusos sexuais, eventuais cantadas cretinas ou coisa parecida nos horários de pico (sem trocadilho!). Os avisos da cor rosa com os horários restritos estão em absolutamente todas as estações, informando que há um vagão específico para os sexo feminino. Homem não entra, literalmente. Eu sabia desse detalhe, claro. Tinha andado algumas dezenas de vezes de metrô e entre ler as edições do tablóide Meia Hora – vendido nas plataformas e adornado com capas que variam de Grazi com dengue a Ronaldinho e os travestis – e os avisos espalhados pelo local, eu preferia me concentrar neles.

Eis que no dia relatado, por causa do esquizofrênico trânsito carioca, cheguei atrasado na estação de Botafogo. Aquele mar de gente entrando na estação ao mesmo tempo, engravatados, mauricinhos, mulheres bem arrumadas, idosos, todos se acotovelando por mais um pouquinho de espaço na escada rolante. Sempre que eu vejo essas cenas lembro das aulas de física, de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo”. Bom, eles até podem. Mas, er… deixa pra lá, voltemos ao metrô. Depois de uns bons vinte minutos na fila para comprar o bilhete, olhei para baixo e vi que o trem tinha acabado de chegar. Com algum cuidado para não despencar das escadas, corri para a plataforma e tentei, em vão, entrar nos primeiros vagões. Seiscentos homens de negócios jogavam suas pastas de executivo uns nos outros e se empurravam desesperadamente. No meio desse processo, o maquinista, sádico, acionou o aviso de que o metrô iria partir.

Na agonia, entrei, com dois homens, no primeiro vagão que estava menos vazio. Um usava um boné cinza virado para trás, camiseta regata e mascava chiclete. O outro empunhava uma pasta murcha e vestia uma camisa social marrom, gasta pelo tempo. A sensação de ter conseguido embarcar íntegro é comparável àquelas vezes em que voccê está na fila de espera do dentista e depois de três horas e duas edições de Caras é chamado. Inevitável não olhar para os demais pacientes e sorrir com cara de “ganhei”.

Com esse pensamento na cabeça, o metrô já em movimento, olhei, como qualquer mortal, em volta. Umas sessenta mulheres: loiras, ruivas, morenas, gordinhas, magras, queimadas de sol, de salto alto, sandália baixa, bolsa de bolinhas, mochila, óculos de borda grossa, óculos escuros, blazer, camisa social, saia vermelha… Um mar de pernas, uma profusão de perfumes doces e um ambiente leve. Achei estranho. Metrô do Rio, às 7h30, só eu e dois homens nesse vagão? Uma das mulheres começou a me encarar com cara feia e o cara do chiclete a se coçar, inquieto. Alguns segundos depois, outra mulher me encarou, desta vez sorrindo. O operador anunciou que a próxima estação seria a do Flamengo. As portas abriram, ninguém saiu. Entram mais dezesseis mulheres. Nenhum homem. Acordado do estado de torpor, percebi que estava no exclusivo e tão comentado vagão das mulheres. Já tinha ouvido falar dele, sempre figura folclórica em mesas de bar e conversas de corredor.

Quando o metrô chegou na terceira estação, Largo do Machado, os meus dois companheiros de aventura saíram do carro, me deixando sozinho com aquele mar feminino. Me senti o último homem da terra. O fato é que, a todo momento, achei que um deles fosse comentar comigo, com ar canalha, algo como “somos caras de sorte, não?”. Fiquei na dúvida se eles tinham realmente saltado na estação ou fugido da situação. Impassível, esperei que o trem parasse mais cinco vezes até eu descer. Antes de sair do vagão, eram tantas mulheres em volta e um aperto tão grande, que eu me senti abusado em pleno vagão exclusivo para as mulheres. Já na saída da estação, vi as centenas de engravatados saindo dos demais carros do metrô, masculinos, com suas valises e sapatos bem engraxados. Preferi a minha viagem.

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O amor é uma vela laranja

Abril 24, 2008 · 4 Comentários

Texto retirado do meu antigo blogue, escrito em outubro de 2007.

Era sexta-feira à noite. Vesti a minha melhor camisa, aquela azul listrada que ela adorava, e cheguei mais cedo do trabalho. Entrei em casa na ponta do pé, mas ela ainda não havia chegado. Melhor. Arrumei a casa, varri o chão e organizei a mesa da sala, aquela que só era usada para ocasiões especiais. Tirei as revistas de cima do vidro e coloquei uma toalha rendada daquelas que ela comprava quando ia para o interior ver a família. Dentro de um embrulho que eu trouxe, várias velas aromatizadas. Ela adora as velas aromatizadas, sempre que ia ao shopping procurava as mais coloridas e com os melhores aromas.

Coloquei um avental para não sujar a camisa e fui para a frente do fogão de quatro bocas que tinha ganho do Márcio na ocasião do casamento. Grande Márcio, o único defeito dele era torcer para o Botafogo. Dentro de uma das panelas de inox, um pedaço suculento de filé, imerso em um molho maravilhoso. Na outra panela, crepitante, um molho de mostarda igual ao do livro de receitas borbulhava, ansioso para encontrar a carne. Na terceira boca do fogão, macarrão. Eu nem gostava tanto assim de macarrão, mas ela era apaixonada por massa, por ela a gente comia massa todo dia. Vai ver é coisa da ascendência italiana. Um pouquinho de azeite, pimenta e um punhado de queijo ralado dentro de um pote de prata. Arrumei a comida na mesa e acendi três velas laranjas. Eram tão laranjas que dava vontade de comê-las.

O perfume no ambiente era afrodisíaco. Ela vai ficar tão impressionada que vai me atacar, com certeza. Faz quase três dias que não nos vemos direito, ela sempre preocupada com as coisas da agência, andava trabalhando em turno dobrado. Dava até pena. O sexo já não era a mesma coisa de quando a gente namorava. Antes era uma loucura, todos os dias, em qualquer lugar, ambiente público ou não. Eu até ficava meio incomodado com aquilo, mas ela sabia me excitar como ninguém. Adorava quando, depois do sexo, ela encostava a cabeça no meu peito e ficava lembrando de como a gente tinha se conhecido e de como eu sabia deixar ela louca.

Me lembro como se fosse hoje. Tinha ido ao cinema assistir um filme asiático. Não sei exatamente qual era o dia, mas era dia de semana. Não tinha ninguém na sessão, só eu. Depois eu vi que ela vinha com um livro na mão e usava óculos de borda grossa. Adoro mulher que usa óculos de borda grossa. Estava com uma saia vermelha e aqueles sapatos franceses. Já se vestia como uma publicitária. Sentou perto de mim e deu um sorriso tímido, daqueles de canto de lábio. Não resisti e acabamos casando.

Lembrava do passado sentado no sofá, tomando o vinho chileno que tinha ganho do sogro, quando ouvi o barulho de chave na porta da frente. Corri para a cozinha, esperando ela entrar. Luiza vestia preto, dos pés a cabeça, e tinha uma aparência de acabada. O tempo e o trabalho vão mutilando as pessoas, mas ela continuava linda. Minha Luiza parecia personagem dos filmes noir da década de 40, tinha até sombra nos olhos.

Ela entrou e viu a mesa repleta de adornos e com os pratos que ele havia preparado. Sentou na cadeira e ficou parada, olhando para a vela laranja. Apagou o fogo com um sopro e depois tornou a acendê-lo, usando a chama de outra vela. Ela nem tinha me visto ainda, parecia cansada com alguma coisa. Resolvi chegar por trás e coloquei as duas mãos sobre os ombros dela. Era um bom massagista, sabia brincar com os dedos tão bem que ela soltou a bolsa e a pasta que carregava e se encolheu toda. Depois, tirou minhas mãos dos ombros e pediu para eu sentar na cadeira ao lado. Só depois que sentei eu vi que a maquiagem preta que usava no rosto estava toda borrada. A mancha negra que escorria por baixo dos olhos chegava até a altura da boca vermelha e seu corpo estava desfalecido na cadeira, parecia que estava morta. Fiquei comovido com aquilo e a abracei.

- Luiza, linda, a gente pode comer outro dia. Você não quer tomar banho e depois ficar deitada comigo?, perguntei.

Ela não respondeu nada, ficou só olhando para baixo, com a boca tremendo e uma lágrima escorrendo pelo olho esquerdo. Eu continuava abraçando-a, sem entender nada, quando ela resolveu falar a primeira coisa em mais de dez minutos.

- Eu não te amo mais, desculpa.
- Como?, perguntei, chocado. Parei de abraçá-la.
- Desculpa, Fábio. Eu simplesmente não consigo mais, não sinto mais aquilo por você.
- O que aconteceu? Alguma vez eu te tratei mal, te ofendi? Eu te amo Luiza.
- É que estou apaixonada.

Fábio levantou da cadeira e acendeu um cigarro. Suas mãos tremiam.

- Apaixonada por quem, porra?
- Prefiro não falar.
- Já que é para me foder, me fode direito. Por quem, porra?, tornei a perguntar, transtornado com a notícia.
- Pelo Márcio.
- Puta que pariu, Luiza. Pelo Márcio? Pelo meu melhor amigo?
- Ninguém comanda isso, Fábio. Desculpa, mas eu não consigo mais.

Luiza levantou-se e deu uma última olhada na mesa, disse ter adorado as velas laranjas e foi embora. Fábio estava no segundo cigarro. Sentou na cadeira, serviu-se e comeu o espetacular filé ao molho mostarda. Não colocou macarrão. Depois de comer, ficou sentado vendo as chamas consumirem as velas.

Sobre a continuação do texto anterior, talvez eu publique, talvez não. É que virou roteiro, aí tem os lances de copyright.

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Hardnews é para poucos

Abril 4, 2008 · 4 Comentários

Terminei de organizar as caixas da mudança ontem. Joguei uma quantidade imensa de papel e jornais no lixo e nesse processo achei uma pasta relativamente antiga com todas as minhas reportagens publicadas nos dois jornais onde trabalhei. À medida em que ia passando o olho pelos títlulos das matérias, confirmei que um caderno de Cidades não é nada fácil. Olhando de fora, sem estar imerso na loucura do jornalismo diário, é possível ter uma noção melhor de como a sociedade é complexa e muitas vezes incompreensível. E que a cidade em si é um organismo descontrolado, autônomo. Observá-la é tarefa de uma cobertura segmentada, violenta, invasiva e necessária: o hardnews. Como estagiário, fiz de chacinas e sequestros a projetos sociais de fazer os olhos marejarem.

“Jovem estrangula mulher e se mata”; “Cabeleireiro é assassinado a facadas em Casa Amarela”; “Três baleados e quatro esfaqueados no Sertão”; “Apreensão de cocaína cresce 57%”; “Bimotor explode em Alagoas”; “Chuva destrói teto de casarão e inunda ruas”, foram só algumas das reportagens que mais me chamaram atenção.

Lembro da primeira vez que vi um corpo por causa da profissão, o de uma idosa carbonizada viva no bairro do Engenho do Meio. Antes de descer do carro do jornal, dei de cara com aquela tradicional aglomeração de curiosos, a imensa maioria crianças, tentando ver alguma coisa identificável da casa, incendiada naquela madrugada. Uma viatura da PM, alguns agentes da polícia científica e o camburão do Instituto de Medicina Legal. Um dos peritos, ao me ver, começou a relatar o fato e me colocou para dentro da casa, no lado de lá do cordão de isolamento, que separava as cinzas e a multidão. Enquanto ele me repassava as informações, íamos caminhando pelos poucos cômodos do imóvel até eu me deparar com a mulher, inerte, engolida pelas cinzas no chão. Não consegui identificar uma pessoa ali. Nauseante. Depois, descobri que uma falha no motor do ventilador causou um circuito que, em contato com as cortinas e os lençóis da idosa, causaram as chamas. Ela não conseguiu chamar os bombeiros pois tomava remédios controlados que lhe causavam uma sonolência impressionante.

Minha primeira matéria policial foi sobre uma senhora que foi queimada viva no Engenho do Meio. Dentro da casa dela, um outro repórter, de uma emissora de televisão local e com anos anos de profissão, sacou um celular e começou a fotografar o corpo. “Para depois mostrar pro pessoal da redação”, disse. Quando os peritos do IML retiravam o cadáver, as crianças que rondavam a casa incendiada pulavam umas nas outras para tentar ver o mínimo que fosse de gente dentro daquele saco branco.

(continua)

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Manu Chao sabe das coisas

Março 30, 2008 · 1 Comentário

Depois de convencer meus pais que não sofreria nenhum atentado terrorista ou seria sequestrado, saí do hotel por volta das 22h30. Estava bastante atrasado e não tinha comido nada desde às 13h. Já dominava o sistema de metrô local, mas durante a noite a coisa muda um pouco de figura, trens que vêm deixam de vir, linhas que normalmente não páram resolvem parar e as estações ficam apinhadas de gente não muito bonita. Gastos 4 dólares num suco de laranja (acredito que o mais caro de toda a minha vida), desci na 51st Station, numa esquina da Lexington Avenue. Na estação, muitas jovens maquiadas, vestindo roupas aparentemente caras, prontas para mais uma noite, dividindo espaço com negros trajando calças largas, bonés de hip hop e pesados anéis em praticamente todos os dedos. Fiquei paradinho ali, com meu chapéu de Manu Chao, comprado no dia anterior. Era horrível, realmente grotesco, mas protegia do frio e evitava que minha sinusite evoluísse para uma pneumonia. Além disso, me dava uma aparência de mendigo caucasiano, o que veio a calhar, pois ninguém mexeria comigo. E ninguém mexeu. Depois de uns 25 minutos e outros 25 dentro do trem, pane elétrica no vagão. Que beleza. Cerca de 80 pessoas apertadas em um espaço mínimo, morrendo de calor, todas com casacos maiores que a vida, esperando que a composição se movesse. Pelos vidros engordurados, duas paredes de pedra, pixadas, uma em cada lado. Se Hitchcock quisesse, faria algumas belas cenas por ali. Até Michael Bay (quem sabe não apareceriam baratas gigantes?) tiraria alguns momentos da situação. Enquanto isso, os funcionários do metrô insistiam pelo microfone que qualquer ação suspeita ou pacote abandonado deveria ser relatado às autoridades competentes.

Alguma demora depois, cheguei na Canal Street Station, entre a Tribeca e o folclórico bairro de Chinatown, e encontrei o Knitting Factory, local do show que fez eu me deslocar algo como 40 quilômetros rumo ao desconhecido naquela noite. Na porta do bar, um carro de polícia com a sirene ligada e um adolescente que falava espanhol sendo carregado, bêbado, por duas jovens saídas de A Noite dos Mortos Vivos, clássico de terror do Romero. Me enrolei para encontrar o passaporte, mas acabei comprovando que era maior de 21 anos e ganhei uma pulserinha verde, o que me dava direito a beber no local. Os músicos do God Is An Astronaut, banda irlandesa de post-rock (isso de post-rock rende um post a parte) felizmente ainda não tinham começado o show e uns roqueiros de Massachusetts estavam no palco fazendo um barulho qualquer enquanto espancavam as guitarras. Irepress o nome do negócio. Enquanto eles tocavam, resolvi explorar o lugar. E como estava num pub, a situação pedia uma Guiness (US$ 7!). A vida noturna nova-iorquina, ao menos nesse dia, se mostrou muito interessante. Em se tratando de um show de rock desconhecido e bizarro pra muita gente, o lugar estava cheio, graças a força de divulgação da internet, vide Myspace, Lastfm, Rateyourmusic e a programação cultural da cidade. Vários indianos ainda vestindo paletós conviviam harmoniosamente com a mais bem arrumada patricinha norte-americana. Não vi um beijo sequer, apenas casais de mãos dadas, juntos, mas já sabia dessa diferença cultural. Lá pelas 1h40, armam um telão e um projetor para a atração principal da noite. Com os instrumentos em punho, o power trio irlandês fez, como era de se esperar, um som maravilhoso, envolvente, cheio de camadas, denso. No telão, algumas imagens de Bush e outras de um chimpanzé sorrindo. Durante as músicas, acabei ficando amigo de um inglês, morador de Manchester, Gareth.

Ele me confessou que também estava sozinho por lá e que soube do show pela agenda de eventos Lastfm. Cabeça raspada e cara de nazista, ele se mostrou bastante simpático, revelou gostar de bandas que teoricamente pouquíssima gente gosta e contou que faz faculdade de Direito. Estava em Nova Iorque para visitar o pai e aproveitou para acompanhar o show, que o fazia se mover de trás para frente, como um grande João-bobo. Gareth disse que gostava de Manchester e que Leeds era uma cidade “dura”, para pessoas duronas, como nos filmes do DeNiro. Também aproveitou para dizer que odiava Londres e que a namorada dele era muito baixinha. No fim da conversa, enquanto caminhávamos até a Canal Street Station, em plena madrugada, frio assustador, disse que queria conhecer o Brasil. A temperatura beirava os -2, mas o gorro do Manu Chao me protegia. Depois de nos despedirmos, esperei cerca de 45 minutos pelo próximo trem. Na plataforma, cinco mexicanos que me encaravam e um americano arrumadinho que se esforçava para parecer mau – cuspia no chão, andava em círculos, fazia cara de revoltado.

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