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- Aloa.
- Kléber?
- Quem?
- É o Kléber quem tá falando?
- Ligou errado, amigo.
- O caralho. Eu sei que o Kléber tá por aí. Chama ele.
Desliga o telefone. Dois minutos depois.
- Aloa.
- O Kléber?
- Quem?
- Quero falar com o Kléber, companheiro.
Desliga.
Depois da segunda negativa, SÉRGIO colocou o telefone no gancho e acendeu um cigarro Marlboro. Dizia que preferia a marca porque era forte na medida certa e deixava a voz rouca, como Clint Eastwood nos filmes de Sergio Leone. Levantou-se da poltrona de couro amarelado e começou a caminhar pelo quarto. Estava procurando o Kléber há quase três dias e nada. Já cogitava desistir da operação. Com o cigarro na ponta dos dedos, Sérgio foi até a mirrada janela do quarto de hotel para sentir um pouco da brisa da tarde. O quarto era pequeno, devia ter uns oito metros quadrados, e fazia um calor desgraçado. Sem camisa, suava como um maratonista. Olhando pela janela, viu a mesma coisa de sempre, carros, trânsito, gente e aquela coisa toda. Desistiu de olhar, foi até o armário, vestiu uma camisa laranja e uma jaqueta preta. Normalmente usava cores chamativas. Abriu a gaveta, pegou um envelope pardo e sua arma. Sérgio acendeu outro cigarro no corredor mal iluminado do hotel e olhou para o relógio: 16h. Estava atrasado, ficou muito tempo tentando contatar o Kléber. Enquanto caminhava, passava as mãos pelo papel de parede cafona e ajudava a arrancá-lo ainda mais da parede. Entrou no elevador, uma MULHER estava dentro. Sérgio olhou para ela e sorriu, um gracejo. A mulher virou a cara. Sérgio coçou a barba e, não se dando por vencido, ajeitou a cueca, aproveitando para mexer nos testículos. Esperava que ela ficasse interessada naquilo. Não ficou. Já na rua, dia nublado, Sérgio foi até um orelhão. Dessa vez uma voz feminina atendeu o telefone.
- Aloa.
- Quero falar com seu chefe.
- Aloa?
- Preciso falar com o Kléber.
- Quem é?
- Diz pra ele que é o Loiro.
- Loiro?
- É.
- Por que Loiro?
- O Kléber. Chama o Kléber, eu sei que ele tá por aí.
- Não tem Kléber por aqui, querido.
Desliga.
Incorformado, Sérgio jogou o telefone contra a cabine do orelhão e atraiu a atenção de um engravatado que passava por ali. “Tá olhando o que, veado? Perdeu alguma coisa aqui?”. O homem desviou o olhar, assustado. Sérgio estava preocupado. Passou o dia tentando falar com o contato, mas não obteve retorno. Insistente, tornou a ligar. Dessa vez foi a mesma voz de homem das primeiras ligações.
- Aloa.
- Olha aqui, filho da puta. Preciso falar com o Kléber. Diz pra ele que é o Sérgio, o Loiro.
- Não tem Kléber aqui não, amigo.
- Seguinte, eu tenho um encontro com ele em uma hora. Se ele não aparecer eu descumpro o acordo, entendeu?
- Que acordo?
- Descumpro o acordo, entendeu? Não estou brincando. Você tá me entendendo?
- O que acontece se você descumprir o acordo?
- O recado está dado. Eu tou falando sério. Se ele não aparecer em uma hora, vai dar merda.
- Ele deveria aparecer onde?
- Kléber, filho da puta, é você quem tá falando? Tá me sacaneando?
- Não tem Kléber aqui, companheiro.
- Já avisei, uma hora.
- Espera um instante.
A mesma voz feminina de antes volta do outro lado da linha.
- Aloa.
- Chama o Kléber de volta.
- Amor, aquele não era o Kléber.
- Você acha que eu não sei que vocês tão me sacaneando, que querem me foder?
- Você nem sabe como é a voz do Kléber.
- Eu já disse o que tinha que dizer. Fui avisado ontem de madrugada que a entrega seria hoje, às 17h.
- Você tá com o material aí?
- Você sabe que eu tou.
- O Kléber mandou avisar que vai estar no lugar marcado às 17h, mas disse que não confia em você.
- Coloca esse filho da puta na linha.
- Ele saiu.
- Coloca esse filho da puta na linha.
- Calma, querido.
- Calma é o caralho. Ele sabe onde marcamos. O JORGE ligou pra mim e pra ele. Ele sabe.
- Amor, o Kléber anda meio ruim da cabeça, ele não sabe exatamente onde ficou marcado.
- Eu só falo se você botar o Kléber na linha.
- Aloa.
- Kléber?
- O Jorge não acertou um lugar comigo, ele disse pra eu esperar as tuas instruções.
- O Jorge disse isso?
- Falou que te ligou ontem de madrugada e que você me procuraria no fim da tarde para me passar as instruções da entrega.
- Praça Quinze, em uma hora.
- Praça Quinze, em uma hora, ok.
- Se atrasar, você já sabe o que acontece.
- Eu sei.
Desliga.
(continua)
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