Relendo algumas coisas dos meus quase seis antigos blogues, percebi que desaprendi a escrever.
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Dinossauro semi-feudal
Fevereiro 7, 2009 · Deixe um comentário
The Economist
JOSÉ SARNEY first ran for elected office over half a century ago. For the past 40 years he has controlled the fortunes of Maranhão, a state on the eastern fringe of Brazil’s Amazon region. He has represented it as federal deputy (twice), governor, and senator (twice). In 1985 he became the accidental, and undistinguished, president of Brazil when the man chosen for the job died before he could take it up. More recently he has been senator for the nearby and newly-created state of Amapá (twice). Time to retire, one might think.
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Herbie Hancock conquista platéia do Rio de Janeiro
Junho 20, 2008 · Deixe um comentário
RIO DE JANEIRO – Era fácil observar que a grande maioria dos que foram ao Vivo Rio na noite desta terça-feira e se dispuseram a pagar ingressos com preços variando entre R$ 200 e R$ 400 não fazia idéia de quem era Herbie Hancock. Praticamente lotada, a casa de shows do Aterro do Flamengo, na zona sul, se encheu de curiosos para saber quem foi o vencedor do Grammy de melhor disco deste ano. Muitos dos presentes esperavam um pianista de jazz tradicional, mas o termo não tem sentido quando se fala em Hancock, que ganhou o prêmio no mês de fevereiro pelo álbum “River: The Joni Letters”, desbancando a concorrente Amy Winehouse.
O prêmio foi recebido com espanto por Hancock, pois desde 1964, quando o saxofonista Stan Getz levou o Grammy de melhor álbum por seu trabalho ao lado de João Gilberto no clássico “Getz/Gilberto”, nenhum outro músico de jazz havia conseguido vencer nessa categoria. Na ocasião, Herbie Hancock agracedeu a coragem da academia e disse que a vitória serviria como uma homenagem para os mestres Miles Davis e John Coltrane.
Vestindo um paletó preto que cobria uma camiseta estampada com o cavalinho da Ferrari, o pianista e compositor subiu ao palco sem dizer uma única palavra. Depois de um tímido sorriso, sentou ao piano e iniciou a apresentação homenageando o saxofonista e amigo Wayne Shorter com uma releitura da clássica “Footprints”, composta no tempo em que os dois faziam parte de uma das mais importantes reuniões musicais de todos os tempos, o Miles Davis Quintet, que contava ainda com o baixista Ron Carter e Tony Williams na bateria.
Aos olhos atônitos da platéia, o quarteto de Hancock – composto por baixo, bateria, piano e guitarra – recriava “Footprints” com uma levada baseada nos sintetizadores de Herbie, uma das marcas registradas do pianista, que demonstrava aos curiosos que de “tradicional” não tinha nada.
Sorrindo muito, o músico brincava com os outros integrantes do quarteto, que emendou “Actual Proof”, do álbum Thrust (1974), na seqüência. “It’s a crazy song!” (uma música louca!), disse o pianista, após sua execução. Com o microfone na mão, brincou com a platéia, comentou que tocava com uma banda maluca e lembrou que veio ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1968, para passar sua lua-de-mel. “Estou muito feliz de estar novamente no Brasil em 40 anos”, disse Hancock, que aparentemente se esqueceu da apresentação que fez no Tim Festival, em 2006.
O teclado-guitarra
Após brincar com o excelente guitarrista Lionel Loueke, nascido em Benin, na África, Hancock anunciaria uma nova e criativa versão, com 17 complicados compassos, de “Watermelon Man”, de seu álbum Head Hunters (1972). No Rio, como nos maiores festivais de jazz do mundo, Herbie largou o piano e foi à frente do palco com um teclado branco em forma de guitarra e “solou”, desafiando os outros músicos para ver quem fazia os acordes mais imprevisíveis.
Atônita no começo da noite, a platéia já batia palmas empolgada com a impressionante presença de palco do norte-americano e de seu grupo, que variava do groove ao free-jazz em segundos. Enquanto tocava o instrumento, chamado pela imprensa estrangeira de key-tar, ou teclado-guitarra em bom português (algo com a forma de uma gatorra, o bizarro aparato de Tony da Gatorra), não era incomum ver Hancock soltando sonoras gargalhadas. “Esta música é quase impossível!”, dizia.
As vocalizações do funk norte-americano dos anos 70 e do hard-bop também tiveram espaço no eclético set do quarteto, que fez uma revisão de “Stitched Up”, composição do cantor pop John Mayer, que fez turnê com Hancock em 2005. O vocal do baixista Nathan East acabaria por animar os presentes no Vivo Rio. A escolha da música é mais uma prova de que Hancock passeia pelos mais variados estilos, não se prendendo a amarras comuns a muitos músicos carimbados.
River: The Joni Letters
Eis que o que muita gente esperava ou achava esperar, viria logo em seguida com duas músicas do novo trabalho. No álbum ganhador do Grammy (ele já levou outros 12, em categorias diferentes), Hancock homenageia a cantora e compositora canadense Joni Mitchell, que tocou ao lado de nomes de peso como Rolling Stones, Jimi Hendrix e o próprio Herbie.
Como não trouxe Norah Jones ou Tina Turner, com quem gravou o disco vencedor do Grammy, que também conta com a voz de Leonard Cohen, Herbie convocou ao palco a norte-americana Sonia Kitchell, que cantou “River” e “All I Want”. Durante a participação da cantora, a platéia, com razão, acabou ficando um pouco sonolenta.
Mas o incômodo foi quebrado logo com um meddley solo do guitarrista de Benin, considerado uma das grandes revelações dos últimos anos. Loueke cantava em seu idioma natal e abusava dos tappings, técnica de tocar a guitarra com uma ou duas mãos, criando notas de escala em alta velocidade. “Ele é uma maravilhosa sopa internacional de música”, definiu Hancock, que faria um belo solo de piano na seqüência.
O grande momento da noite
Foi no final da noite que a festa alcançou seu ponto máximo. Sem querer entregar o ouro de bandeja, Hancock escolheu, para depois de quase uma hora e meia de show, duas pérolas: “Cantaloupe Island”, do álbum Empyrean Isles (1964) e “Chameleon”, do Head Hunters (1973).
Na primeira música, de um dos LPs de jazz mais influentes dos anos 60 (período em que gravaria seu primeiro trabalho para o cinema, a trilha sonora de Blowup, de Michelangelo Antonioni) e recriada inúmeras vezes, uma delas pelo grupo US3, que mescla jazz e rap, Hancock mostraria, com intensos sorrisos, a inventividade do jazz. O pianista estava tão feliz que mais parecia uma criança experimentando um brinquedo novo.
Já “Chameleon”, com sua inigualável linha de baixo funkeada e a bateria quebrada de Vinnie Colaiuta, levantou parte da platéia, que transformou o Vivo Rio em uma pista de dança. Tendo o nome retirado de uma música do camaleônico Frank Zappa, “Chameleon” fechou a noite da melhor forma possível e, com toda a certeza, quem foi ver o “vencedor do Grammy”, saiu com muito mais do que isso.
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Hardnews é para poucos
Abril 4, 2008 · 4 Comentários
Terminei de organizar as caixas da mudança ontem. Joguei uma quantidade imensa de papel e jornais no lixo e nesse processo achei uma pasta relativamente antiga com todas as minhas reportagens publicadas nos dois jornais onde trabalhei. À medida em que ia passando o olho pelos títlulos das matérias, confirmei que um caderno de Cidades não é nada fácil. Olhando de fora, sem estar imerso na loucura do jornalismo diário, é possível ter uma noção melhor de como a sociedade é complexa e muitas vezes incompreensível. E que a cidade em si é um organismo descontrolado, autônomo. Observá-la é tarefa de uma cobertura segmentada, violenta, invasiva e necessária: o hardnews. Como estagiário, fiz de chacinas e sequestros a projetos sociais de fazer os olhos marejarem.
“Jovem estrangula mulher e se mata”; “Cabeleireiro é assassinado a facadas em Casa Amarela”; “Três baleados e quatro esfaqueados no Sertão”; “Apreensão de cocaína cresce 57%”; “Bimotor explode em Alagoas”; “Chuva destrói teto de casarão e inunda ruas”, foram só algumas das reportagens que mais me chamaram atenção.
Lembro da primeira vez que vi um corpo por causa da profissão, o de uma idosa carbonizada viva no bairro do Engenho do Meio. Antes de descer do carro do jornal, dei de cara com aquela tradicional aglomeração de curiosos, a imensa maioria crianças, tentando ver alguma coisa identificável da casa, incendiada naquela madrugada. Uma viatura da PM, alguns agentes da polícia científica e o camburão do Instituto de Medicina Legal. Um dos peritos, ao me ver, começou a relatar o fato e me colocou para dentro da casa, no lado de lá do cordão de isolamento, que separava as cinzas e a multidão. Enquanto ele me repassava as informações, íamos caminhando pelos poucos cômodos do imóvel até eu me deparar com a mulher, inerte, engolida pelas cinzas no chão. Não consegui identificar uma pessoa ali. Nauseante. Depois, descobri que uma falha no motor do ventilador causou um circuito que, em contato com as cortinas e os lençóis da idosa, causaram as chamas. Ela não conseguiu chamar os bombeiros pois tomava remédios controlados que lhe causavam uma sonolência impressionante.
Minha primeira matéria policial foi sobre uma senhora que foi queimada viva no Engenho do Meio. Dentro da casa dela, um outro repórter, de uma emissora de televisão local e com anos anos de profissão, sacou um celular e começou a fotografar o corpo. “Para depois mostrar pro pessoal da redação”, disse. Quando os peritos do IML retiravam o cadáver, as crianças que rondavam a casa incendiada pulavam umas nas outras para tentar ver o mínimo que fosse de gente dentro daquele saco branco.
(continua)
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