Vestindo uma camisa branca muito larga, um pouco suja, mas com certa dignidade, primeiro ela se aproximou da senhora logo à frente. Estendeu as mãos e disse alguma coisa no pé do ouvido, esperando ser ouvida. Não foi. Depois do gesto, olhou em volta, meio envergonhada, as linhas de ônibus que passavam: 415, S20, 474, 2113… Arrastava as sandálias gastas pelo chão e coçava o rosto com dificuldade, esfregava com força as sobrancelhas pretas bastante finas e apertava os dedos contra a cintura como se precisasse de algum conforto.
O rosto dela, muito magro, não inspirava muita comoção, mas certamente causava algum desconforto. Ela sorria com angústia. A senhora com quem havia falado entrava, então, no ônibus de luxo de um condomínio num bairro muito distante dali. Barramares o nome. Como se estivesse tomando coragem, veio falar-me. Chegou de mansinho, de um jeito tão estranho quanto suplicante. Olhava com desespero e novamente estendeu a mão.
- Desculpa rapaz… preciso da sua ajuda. Meu marido me abandonou.
Uns outros, logo atrás, riram com a frase. Se abandonou, por que ela estava ali? O que realmente aconteceu? Quem garantiria que ele tinha abandonado-a e em quais circunstâncias? As tantas perguntas que os demais faziam a irritaram, que logo virou as costas e saiu correndo, profundamente incomodada. Não se sabe exatamente o que aconteceu com aquela mulher das sobrancelhas finas e do rosto pintado de angústia. O mais curioso: era Dia dos Namorados.


